Sunday, April 19, 2015

no more songs


video

Slapp Happy’s “Moon Lovers”, in Ça Va, 1998  |  Keith Haring’s Untitled, 1984


Três horas da manhã. De fora do quarto: uma coleção de desentendimentos impõe entrada sem dose. Se sim, judiaria. E então o sonho se despalavra inteiro (n)a noite que tinha acabado de ser. Que era pra ter sido: esplêndida prolífica intensa em tempo-regozijo de alucinar o diabo a quatro, e o que mais. Nunca (mais) será.
Ali, decerto atarantado por não saber ver, um teclado de computador pensa que escreve a seguinte frase: “À única estrela no céu. É hora de rasgar-se boca. De beijar a lua. E tão mais: de dizer tchau”.
— Um dia, quem sabe… os sonhos são.
— Mas, meu bem, você não sabe não lembra não sente não compreendeu ainda?
— Que é noite de rebentar amor?
— Não, quantaorgânicaingenuidade, meu bem. As coisas hoje em dia são tão operacionais...  
Três horas da manhã. De dentro do quarto de dormir: sono que inexiste. Café fervendo na boca maior do fogão livros espalhados na mesa de ler e digitar coisas sem nome com ou sem sentidos pululando de vontade de desvairar sonhos como aquele casal de proparoxítonos passos que é exatamente o que se escuta borbotando na rua sobre a dor a miséria dos dias os recônditos ser(t)ões que ainda são pretendidos tanto na vida quanto na ficção das necessidades e enfim tudo ainda zonzo mas muito percuciente na cabeça uma imagem aquela imagem está finalmente chegando de viagem a mala azul, grande, repimpada de tessituras e ranhuras da semana, a vitrola Omniplay ligada. Stars fading far. Não, o mundo não está esquecido. [Te vejo e te lembro. Vem como poesia. En une image poétique l'âme dit sa présence. La rêverie de te connaître.] Ainda tem olhar. Que vara vasculha. E é madrugada.
O silêncio. A madrugada entrando. A lua brilha como se por dentro. Rescue rescue me, rescue us. Ah… sim… tenderness without fear. Não é possível, é possível? Será sem fim? O silêncio. As palavras. Dreams hopes and promises fragments out of time. Sheer stuff of dreams, veja bem, ponha des(a)tino. (N)a miséria atarantada dos dias. A cor de ameixa dos livros. Os quadros vistos recentemente através da tela do computador. Cheiro de amor no quarto. O teclado do notebook pensa que entende das rêveries sem limite, sem cessar. Pensa que sabe dizer “Meu bem, eu te amo”. Ou pensa que acredita na possibilidade de escrever a alguém pra explicar que “Não, juro que eu nunca imaginei, amor... Prometo que eu te esqueço. Um dia. Nem vai demorar muito. 'Quem gostou de mim... me deixou assim... sem dó... na dor... sem fim... se foi.' Mind you. Pois: não é pra ser... tal-qual mesmo? Olha que vantagem, não é? E será, e seremos, restaremos: desespaço. Então, será possível pensar e entrever mais e amar pra desamar e não se importar, só tendo e vontadeando ter pra olvidar, (as)sim, eu digo, de jeito muito moderno, até mesmo pós-contemporâneo, há de ser, você não acha? Ah, meu bem, não fica assim, não”. Wake up, angel, the snow. Which covers the earth. E quebra na noite. Sem voz. Só sibilante. De tão inarráveis invisibilidades. That lie. Frozen p(l)ayers...lie. É uma pena. Mas enfins... É som.
(D)o silêncio. Dentro e fora do quarto. Às três da manhã. A única coisa que tem lugar.