Thursday, July 16, 2015

mãospoemassem


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duas mil noites atravessam os meus dedos
lá fora o mundo precisava inexistir, de espera — o som
de dentro do quarto o martelar de uns gestos — únicos
ainda seca, crua demais, por fim indissolúvel — a colcha vazia
até virem os olhos fechados, o escape, a ternura imaginada, o ímpeto
zooms por baixo das tentativas movimentam-se a uma fresta meredith-monk
de pecados sem lâmpadas, a respiração que se perde, violinos tocando cantatas

o tempo todo
na cabeça
o poema transvira-se

e é quando mantenho a impressão de que
umedecendo-se entre um desvão de serenidade e loucura
todas as palavras passaram por mim
aturdidas, sem sintaxe, galopantes, rapidamente, e mais, ao mais...
ainda, preguiçosas-já, distendidas, e(n)fim

vasculham duas mil estrelas as noites já sem pudor, esvoaçantes, lá
na parede do quarto, tremulando, telas floral fields — os seus
céus azuis, alaranjados, três linguagens se arrepiaram a toque de caixa
e tudo verdeia de novo
devagar

impresso é de certo o gosto de combinar as palavras —
(que) redemoinham por dentro, entram e saem, esticam-se, crescem —
o humano, a carne, no chão, pro céu, que escorre —
em cinco pontas, penetrando, indispondo, e lambendo, e entrecursando

a noite
como rio
de um poema
que se espera
de vorar


[Crosslights (2009-2010), por Joshua Bronaugh  |  Música Prostitute Poem, da banda Gong]


Wednesday, July 1, 2015

sua nota (de)(s)amor


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suas e duzentas e quarenta e nove asperezas de desadocicar sabores mel
e (as)sim eu fico de miragens à flor da pele, descalça fodida em rasgos
sensíveis são, afinal, todas as horas de perceber
que a história do outro o sorriso a mágoa o rancor até as cutículas
e ter-jeitos de adorar sofrer sentir sede dores e dedos e mais
o diabo-a-quatro de purpúreas verdes cruas verdades e descalabros
do outro despertam infinitas circunstâncias a mais,
muito mais do que qualquer que seja das minhas qualidades ou tolices:
“ah, menina, o que eu mais quero enfim desvê de ver só você
é um tão muito flertar e beber e me atracar da saliva de pernas abertas ao outro
e servir de respiração a todos os que terão fome de mim em gozo”

eu não, eu tinha palavras hoje se contorcendo pra contar só pra você
da imensidade e das eufóricas e incontroláveis miragens
à flor da pele que me transmutavam a caminho de casa,
os carros no meio da avenida pedestres pés e sonhos talvez só indo,
e eu na boba expectativa de estar casa cama letra dedos dizendo sobre
como seria, aliás, te levar pra conhecer num primeiro dia uma das minhas
mais amorosas estrelícias, de madrugando-se,
pequenina flor do ano que, se vista do mirante de onde
daqui a três meses já se terão passado muitas eternidades
de prelúdios, como este, terminaria recendendo a celebrações, que... se...

ah, elas, as estórias e estrelícias e ternuras, eram todas hoje suas
fiquei que não me suportava, enquanto corria de lado a outro na rua,
de explosões pra chegar em casa destrancar o céu a chave o tapete de entrada
da não rotina que seria a nossa, com estrelas luas luísas inaugurando a vinda
mas que agora despenca e que porra é essa? nem sei mais desreconheço sendo

sete e trinta e três da noite e ainda me faço de embrulho
a rotineiras solas de sapatos que me dispersam a coragem o som
a vontade pra tão apenas desdizer aqui no imenso vazio que retorna
de um quarto chagall de modiglianis elásticos com que pelo menos conter
o grito renhido de adeuses e(m) ágapes agonias e eu de novo descalça fodida
em conjeturas ridículas projeções, uma talvez certeza, acho que nem seremos
e desiludo enfim que no ínterim da história você nem-não estará


[Study for the curtain of The Firebird by Stravinsky: “The Enchanted Forest” (1945), por Marc Chagall
Música de Baden Powell, “Prelude in A Minor”]


Sunday, June 7, 2015

o_estopim_do_amor



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     Ná Ozzetti & André Mehmari, Nosso amor (https://youtu.be/04CZAOdkoxQ)


Pensou então que o silêncio pudesse conter uma palavra que explodisse. Fosse de vez só a arruaça toda. Com o dizer daquilo que apertava na garganta. Se assim seria justo ou injusto, se as pessoas entenderiam, se isso ou aquilo outro, importava? De segunda a segunda, o pensamento era este. Que o silêncio dê agora de pôr os pingos nos Is!
Era necessidade. Muito grande, como se diz. Pois-que se imagine. Tinha conhecido o Amor. Do jeito que lhe contavam na escola, em mesa de botequim, depois no trabalho, em fila de banco, livro, supermercado, nos cantos diabo-a-quatro da vida, o Amor era algo assim... longe, longe. Feito de bastantes coisas — incompatíveis. Ou então perto, perto. Como se fosse tanto de café-com-pão, café-com-pão, e então... dessa forma... que era sem jeito, sem rosto, sem nem descontrolar minuto de relógio... não-queria-porque-não-queria. Quis.
O que vinha sentindo, ah... lá-isso era coisa pra médico nenhum explicar. Amava, abria os olhos de manhãzinha, encontrava travesseiro só seu, ali, ao léu das intenções. Daí-que procurava jeito de não ficar com sensação negativa pelo Amor só por conta de... Estava sabendo amar? Fazia muita falta aquilo de ter-que-ter sentido, forma, rosto, voz nem que fosse de sol rachando, olhar mesmo sendo de chuvisco, ou sustenido. Não precisava deixar mais claro também que amava? Trazer pra mais perto o Amor? Parecia tão longe ainda...
Espremiam-se as carências, tique-taque ia dar na lembrança do que ainda será. Eis que o Amor vinha sendo assim, espreguiçando-se, em tédio? Querença de cá, apenas os tais floreamentos de lá. Os dias redemoinhavam na virtualidade das línguas, era por isso! E as coisas foram caindo na distração típica da vida que se vive sem pulsar. Vizinhança-ali, cheia de quietude, como se sertão. Pequena — a cidade. Tudo feito de papel. Os dias, o trabalho, listas de compra, tonteira que se põe à mesa todos os dias, sendo de silêncio, de barulho; tempo cozinhando, tempo remexido; sim, aqueles momentos de caçar a fumaça dos vazios... a mochila de carregar as coisas de lado a outro, pra lugar nenhum. E aqueles anúncios? de gente vendendo pão de mel, gengibre de acerola, poeira de cimento, ou o quê? Coisa de cidade pequena, até as solas dos sapatos. Ia tudo indo, a vida. Sendo que, do outro lado, do lado do Amor, a cidade também era uma cidadezinha, interiorana por assim falar, com as respectivas distinções de distância, a gente sabe, mas naquela mesma toada de pequenaria com que se vê passarem os assuntos. Que eram tantos... o Amor sugeria. Se verdade ou não, tão só era como escutava o Amor contando, e havia de acabar achando que. Cansava-se de acreditar que era a pessoa mais importante do mundo, que isso, que aquilo. Mas assim, no concreto, muito pouquíssimo, quase um nada. Fala, fala, falação de Amor, adoidadamente. Pessoa mais importante do mundo, imagina! Duvidava, sentia saudade, quando é que... aquela angústia nunca acabaria? Por fim, acreditava. E ficava de esperança, esperando, esperava.
Sentia, no entanto, vontade de ir também pra outro rumo. Até em Lavras, por exemplo, dia desses, provar uns biscoitos de quinoa. Sempre dava isso — de ficar querendo aquilo. Também tinham contado que no Mato Grosso, em Brasília, Salvador, no Pernambuco, floridas... noites de luar, ah... Era um bocado bom de tantas outras localidades. Será que numa estaria mais perto, mais longe, inexistindo ou só sendo — o Amor?
Segundo tomara conhecimento, era ali, num interior do outro lado do mundo, imagine-se, do outro lado do mundo, só podia mesmo, que o Amor prometia. Cheio de gosto que não precisa passar por cima de outro gosto pra existir, relatavam. Cidade pequena também. Porque, como diziam, não se necessita de mais de um palmo de outroras pedindo-se de presentes pras auroras pulularem... Do que mais se precisava, afinal?
De sentir. Atravessar. Pertoamar. Rosto sem rosto, Amor que é Amor tem que ser-sem-conter-se, e sem o tal fingir-lá-rá-laiá, ouvia alguém cantarolando a duas esquinas de casa, foninho no ouvido, distraindo-se. Okay, Amor até existia, mas ainda estava de longe. Porém, precisando, pensou, ah... precisando, bastava que... que... ligasse as matemáticas, não, não, as matemáticas, não, as geográficas fábricas de ver e ter e de conversar e até de pôr gosto e desgosto nas coisas e pessoas, telas teleféricas, não era assim que as relações aconteciam nos tempos de hoje? Mas mesmo que sem... sem serem de tocar? Sim, diziam, era magnífico, moderníssimo, bonitíssimo até, por conta das tais soluções engenhosas. Acreditava, portanto. (Con)sentindo-se.
Passavam as horas, o quarto continuava vazio. Aquela promessa de juntarem as coisas, os pratos, colheres, triunfos, quadros, papéis, canetas de escrever miragens, lápis de colorir, livros em pilhas de livros, cacheados anoiteceres em penumbra de estupor ou esplendor, tudo o menos, tudo o mais, até as judiarias... A luz e os cobertores usados em tempo de chuva. Porque, fosse, era pra dividir até os resvalos, as impertinências, até as ruminações de de-noitinha, não era? Os lapsos, desfeitos, os muitos aconchegos e atrasos. Era pra ser assim. Tem-que-então que a vida segue.
Os dias correm caminho de maratonista. Tinha que ir estudar, ora-essa. Seria. Iria. O sonho de sonhar com as coisas todos os dias não era pra ser deixado na esquina entre a rua dois e a quarenta e nove. De serenos. Eram pra durar, cantarolar. Sonhos. E aquele... de ainda ir pro estrangeiro ver se lá as pessoas também comem caquis? E tantas outras frutas. Ah, adorava frutas. Fosse de habilidade com pintar, também pintava elas todas qualquer dia. Ou de escrever, novelava. E assim por adiante.
Que o silêncio contivesse, no fim das contas, palavras que naquele dia explodissem. E então teria dito que não acreditava nas ladainhas contadas, coloridas, meu bem, tão apenas ao sabor de um fim de semana de amizades. Coloridas? As amizades. De dormir com, bem se imaginava, é claro. Aqueles dias, do Amor em companhia que não a sua, tinham sido bons, é? que bom então, ah, muito legal, que especial... Que nada! Pois-que ficasse com eles, usasse e aproveitasse, e se sumisse. De vez, então. O tal Amor. O que não seria só prudente, mas decente, né? Porque... porque não estava com a mínima disposição pra ficar ouvindo cenas sendo descritas como se depois de noites aos acalentados movimentos de regozijo, com outrem... Tivesse a santapaciência, não? E então ainda vinha dizer, no dia seguinte, dos tim-tins, como se nada tivesse de fato acontecido, que... que... Ah...! Que coisa mais esquisita! Não, não, daquele jeito, não queria Amor, não. Concluía. Tinham-lhe dito, em contrapartida, que bobagem, que era ciúme, maledicência, coisa tola encarar os fatos assim, tão precipitadamente. Fundamento, comprovação mesmo, não tinha. E enfins...
O quarto agora está vazio. É como sempre. Não tem mel na despensa, onde já se viu? nem nunca terá. Sabe-se. Fazer o quê? Deu uma piscadela pra ver se pelo menos compreendia. Tinha sido devaneio, né? Ainda estava tudo lá, tudo do mesmo jeito, tal como está, sem decolar. Bom-que. Tudo certo. A noite. Sem luz. No ar. A tela. Iluminando mais um sem-quê, dos dias. Lembrou, então, que pensava ter encontrado o Amor. Que é isso, meudeusdocéu. Ocorria que, tão só, o Amor inexistisse? Ou tinha só relampeado certo acontecimento de eternidade, mas voltado pra longe? Voltou. Pras mesmas conversas de rua, de botequim, nos silêncios das matérias de jornal, também no ruidoso das páginas dos livros. Só cenas. Era como deveria ser, não era? Uma coisa, entretanto, se pressentia: entrasse naquele avião, fosse pra longe daquele jeito, o Amor não voltaria mais. Nunca mais. Como é que amor que não quer nada ia durar? E então, às dez e trinta e três da noite, num frio corredor de aeroporto, gente pra tudo quanto era lado vindo, indo, partindo... eis que o Amor ainda estava ali, querendo prosa, pedindo retorno, que não tinha sido nada daquilo. Explicando-se. Coisa pra qual nem justificação havia. Desviando-se, dizendo absurdamente de leros, boleros, promessas e tantas conversas que, ora-bolas, de verdade nem eram, nem seriam. Foi-se, enfim, o Amor. Tudo agora, de novo, no seu devido (não) lugar. É como sentiria.
E então acordava-se.

Friday, May 29, 2015

the shudder of poetry and (f)(l)ight





Simply glorious, it is, when one feels embraced by Poetry in its relation to the living. There’s such a Whole prone or compelled or willing to achieve freedom by the double movement of purging away and espousing what can be alluded to as “elements of fleshly existence”. Even above and beyond, as imaginations. In those works of style, beauty, critique. Pieces of liberation, as a matter of fact. [And as a matter of Dream.] (Dis)(re)engagement, experience, and passion. True motion. They butterfly, disturb you, they dance [around and toward]. A Vision. Today, I opened the page-window of my morning bedroom; Enchantments leaped off the page at me. Incantations on air. Everywhere. Reminding me of so many things… To see, wonder of, desire, grapple with, struggle against, clack along, beat for. There are and there are not cars, clothes, lanes, thrones, howls embedded within. But Joy, there is much Joy. When you’re invited to Poetry realm and have conditions to step into, at least for a fleeting whenever, there is much Joy. A primary source of pleasure courses through your veins. A vivid, pennate, life-swarming sensation that you exist. Even by delusion or engorged by droves of brutalities. Even in that paltry space left to you. You exist. That’s big, beautiful, and pulsates. No possible resentment, no blame, no realities you cannot shoulder, no ecphoneses of blah-breathtaking whatever hurting you because that’s offensive both for your intelligence and sensibility to listen to/read it in a dear expanse where should lie dulcet secrets or, at most, pathetic poems waiting to be written for the universe...for you; no exasperation, no helpless waiting-for-the-sun, no lies being blown toward you any longer from close-by grounds or distant (land-)lines; no systematic remaining but a very natural one: that of the spirit, “into its own changeless purity”, or indignation, or extreme passion, explosion, compassion, desire…just yearning for life. As if rejoicing in such exhilarating moments. Transitory, or even visibly inexistent at all. But yours. Your own vision. As unique as shared as relentless in its incantation to make you perceive of your effulgent or wrecked life and, nevertheless, walk on air…
(I cannot remember to have received a gift like this Yeats which lit me up so delicately, passionately, and dearly this way. All my gratitude to poetess Eabha Rose, a precious friend, the kindest soul I’ve ever known who’s always beautifully willing to achieve freedom herself and so generously blows it toward you. By writing, with her poetic (uni)verses, her own Poetry exhilaration. And then, these passages excerpted from the Yeats she sent me as a gift this week, dazzling me with much-much Enchantment):

II
I cannot imagine an age without metropolitan poet and singing girl, though I am convinced that the Upanishads—somebody had already given her the Pyramids—were addressed to the girl.
Certain Upanishads describe three states of the soul, that of waking, that of dreaming, that of dreamless sleep, and say man passes from waking through dreaming to dreamless sleep every night and when he dies. Dreamless sleep is a state of pure light, or of utter darkness according to our liking, and in dreams ‘the spirit serves as light for itself’. ‘There are no carts, horses, roads, but he makes them for himself.’
III
The Spirit is not those changing images—sometimes in ancient thought as in the ‘Cimetière Marin’ symbolised by the sea—but the light, and at last draws backward into itself, into its own changeless purity, all it has felt or known. I am convinced that this ancient generalisation, in so far as it saw analogy between a ‘separated spirit’, or phantom and a dream of the night, once was a universal belief, for I find it, or some practice founded upon it, everywhere…
(“Book III: The Soul in Judgment”, in A Vision, The Collected Works of W. B Yeats, vol. XIV, edited by Margaret Mills Harper and Catherine E. Paul.) 

Sunday, May 10, 2015

the invention of wings in two lines



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Arvo Pärt’s Spiegel im Spiegel (for cello and harp)
Fred Tomaselli’s Expecting to Fly (2002)


Sounds to listen to in the harp of night. Cello odors hold up the air, as on the far edge of the horizon a thin rain begins to fall. “The story, where’s the story?” Puffed-up giggling, stiff-backed forthwith. Nonplussed feelings for a second, and then “Oh no, it’s just…sheer stuff of Dreams.” How to burst out singing, singing, singing as far as the song can go, like a shrill chanting exploding and stretching out of sight? “An extremity of love,” you guess
It was once upon another time. Now, polluted senses blurred eyes brutal gasps cough sigh cough. Clouds & wah-wah…pooow! Squeezed together like fingers frozen to the spot. Where are you? They. They are. So we, where’s the where in which the wish’s begun to stir? For us. To see. And see. See & skin. Even more vividly. No bottled-up ivories, crooked swords, no swords, what’s less, what’s more? “Oh babe, it’s sheer stuff of Dreams.”


Sunday, May 3, 2015

riverbed


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        “Au Hasard” by Dans Dans | [Figura solitária/Untitled, 1957, by Goeldi]


hailing the arrival of new wor(l)ds
with a cut in the mouth to drain the silence
she, who’d promised not to hark back
to the time when a first dawn flashed up before her
like a pelagic flower born of the abyss, effulgent, she
was in her spot, quiet, disgruntled harmonies
were perhaps…pervading the bedroom as a damp chill
slunk across the anemic-lighted asphalt outside
graciously rigged with a dragon fruit aroma at that time,
and the neighborhoodstretching itself awake
this and that arousing handfuls of poetic imagination…
the real, “yes, images burn once they touch the real,”
and so it went: the morning lit up her loneliness
while she set a white page down on her lap
and just remembered, gloomily enough, that they
didn’t even have or take a photograph
to thunder through in days of (riverbed-)distance.


Sunday, April 19, 2015

no more songs


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Slapp Happy’s “Moon Lovers”, in Ça Va, 1998  |  Keith Haring’s Untitled, 1984


Três horas da manhã. De fora do quarto: uma coleção de desentendimentos impõe entrada sem dose. Se sim, judiaria. E então o sonho se despalavra inteiro (n)a noite que tinha acabado de ser. Que era pra ter sido: esplêndida prolífica intensa em tempo-regozijo de alucinar o diabo a quatro, e o que mais. Nunca (mais) será.
Ali, decerto atarantado por não saber ver, um teclado de computador pensa que escreve a seguinte frase: “À única estrela no céu. É hora de rasgar-se boca. De beijar a lua. E tão mais: de dizer tchau”.
— Um dia, quem sabe… os sonhos são.
— Mas, meu bem, você não sabe não lembra não sente não compreendeu ainda?
— Que é noite de rebentar amor?
— Não, quantaorgânicaingenuidade, meu bem. As coisas hoje em dia são tão operacionais...  
Três horas da manhã. De dentro do quarto de dormir: sono que inexiste. Café fervendo na boca maior do fogão livros espalhados na mesa de ler e digitar coisas sem nome com ou sem sentidos pululando de vontade de desvairar sonhos como aquele casal de proparoxítonos passos que é exatamente o que se escuta borbotando na rua sobre a dor a miséria dos dias os recônditos ser(t)ões que ainda são pretendidos tanto na vida quanto na ficção das necessidades e enfim tudo ainda zonzo mas muito percuciente na cabeça uma imagem aquela imagem está finalmente chegando de viagem a mala azul, grande, repimpada de tessituras e ranhuras da semana, a vitrola Omniplay ligada. Stars fading far. Não, o mundo não está esquecido. [Te vejo e te lembro. Vem como poesia. En une image poétique l'âme dit sa présence. La rêverie de te connaître.] Ainda tem olhar. Que vara vasculha. E é madrugada.
O silêncio. A madrugada entrando. A lua brilha como se por dentro. Rescue rescue me, rescue us. Ah… sim… tenderness without fear. Não é possível, é possível? Será sem fim? O silêncio. As palavras. Dreams hopes and promises fragments out of time. Sheer stuff of dreams, veja bem, ponha des(a)tino. (N)a miséria atarantada dos dias. A cor de ameixa dos livros. Os quadros vistos recentemente através da tela do computador. Cheiro de amor no quarto. O teclado do notebook pensa que entende das rêveries sem limite, sem cessar. Pensa que sabe dizer “Meu bem, eu te amo”. Ou pensa que acredita na possibilidade de escrever a alguém pra explicar que “Não, juro que eu nunca imaginei, amor... Prometo que eu te esqueço. Um dia. Nem vai demorar muito. 'Quem gostou de mim... me deixou assim... sem dó... na dor... sem fim... se foi.' Mind you. Pois: não é pra ser... tal-qual mesmo? Olha que vantagem, não é? E será, e seremos, restaremos: desespaço. Então, será possível pensar e entrever mais e amar pra desamar e não se importar, só tendo e vontadeando ter pra olvidar, (as)sim, eu digo, de jeito muito moderno, até mesmo pós-contemporâneo, há de ser, você não acha? Ah, meu bem, não fica assim, não”. Wake up, angel, the snow. Which covers the earth. E quebra na noite. Sem voz. Só sibilante. De tão inarráveis invisibilidades. That lie. Frozen p(l)ayers...lie. É uma pena. Mas enfins... É som.
(D)o silêncio. Dentro e fora do quarto. Às três da manhã. A única coisa que tem lugar.  

Thursday, March 26, 2015

the perfect day



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“Late Night” by Syd Barrett


A sunset forthcoming. Interposed between reveries and announced traffic signs. Curves, asteroids, diamonds, reminiscences. Sulphur times reclaiming. The sun. The sun is. Jumping down. Purples and emotions. In full bloom. Chucked out. Of the frame. Of his real purposes, fuck. Of the ongoing weeks. With much, very much. Intensity. His fragilit(ies). Vulnerable. Desires. Until a moon could say. “Hey. Just look. It sucks. Lick the asphalt. Off your fingers. And…never mind.” Everyday explosions on the streets. Houses and headaches. He keeps wondering. And trudges on. Enticed. “Oh. The town looks different. It’s lightened. With the need. For the sun…shine.” He loves the sun. He loves the purples. He loves you. There’s unfortunately. Imagination overmuch. He knows. He sees. And syntaxes. Unfilled with chains. Ads intertwined. The fear of the chill. Unfastened from stepping into. Halls of hope. Shared Sun…days. Warmly. Dearly. The myriad dreams, promises, poetry in the moonligh. Each single corner he traverses. Is like…a petal-pulling impertinence. The traffic signs of the day. They weren’t that eventful. That’s fine. Things and their images. Things casting no shadow. Okay. But what has existed. Or won’t exist. As a coin-faced destiny. Swallows him up. Today. The night peeking out. Impressively. As he just wanted. To be quiet. At home. In bed. Giggling at his nothingness, no matter. But imagining. Who cares, he does. Traversing skies, not traffic signs interposed. Or such. Imagining. Just imagining. Like…dreaming? No, like imagining. Which’s like…living. Even the greediest fantasies. Or the gloomiest tic-tac ads. Needle-piercing like anyone’s day is, no matter. Imagining. Living. Touching. Fucking. He would be joyfully. Looking forward to. While the sun went down


Tuesday, February 10, 2015

... um presente Josué, frequentando, azul...



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Chegarei em casa ontem, e olha que levo de amanhã três intensidades “bem descabidas” — ia dizendo, como se só se rindo, em largo, um dos meus dedos desobrigadíssimo de pôr nas coisas e nas pessoas sentido de relógio. O que às vezes é possível...
Penso sempre que os sonhadores de palavras existem. E então eles são sonhadores de sonhos. Até da gente, de tudos — não seriam? Josué. Ah, la-la-la... Lembrei de acordar daqui a sete dias tão... sem fim. Assim. Em desvario tropeço êxtase sonilho que não é de todo ligeiro, mas até algum ponto allegro, ou pianissimo. Graças de Josué. Do nosso, Maryllu, Josué.
E foi que nesta segunda-feira cheirando à caricatura mas também à madrugada dos dias que... que. Uma danação! De alegria. Voltarei de ontem, abro o primeiro dos meus e-mails, vem nele aviso do blogue dela de que o Josué é aqui. De novo. Pra eternidades, podemos? No imediato, vontadeei.
O chorozinho desses de abraçar o mundo — mesmo tal mundo-mundo, estranho-mundo que a gente não consegue nem abraçar — veio de jeito. Está sendo bonito. Matutei no menino [gente mulher bicho passarinho ventania] madrugada afora. Tinha não como, e tinha?
Até agora me digo de matutar ainda: viria de quem, de onde, em quais ou quantos por-sendo esse... esse enternecer azul? E ver azul, sendo que estando vivendo saltitando ou talvez tão mesmo soprando-se e estranhando, desaparecendo?
O Josué da Maryllu, essa querida linda deliciosa que escreve de pôr giro na gente e também ela, que nem só mesmo ela!, renovando a gente com borboletas, ah, eu nem sei de um ser possível dizer. É que me pegou emoção de árvore hoje! Agraciada. Estou. Em toque das coisas, uma muita convicção: a de ir ali sempre, em graça dela, do Josué dela, que no fim vira uma mais que graça da gente na gente. Esta lindeza de texto, meu tum-tum: https://maryllu.wordpress.com/2015/02/09/gracas-de-josue.

Sunday, February 8, 2015

morning love



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Tapis Volant by Claude Verlinde | The Shade of the Mango Tree by Luiz Bonfá



Sundays after loveflying are to flap without wings:
a gift for flare, you wonder, and it regains you all of a sudden
by touching the intimacies of what you uninvent and make delirious

the verb “splendor”, for example, you give it abilities of not denominating
tic-tacs, so you fill it with such flimsy, subtle, even quixotic inclination
to be a violet, a violin…dancing and being danced as to moonlight… 

“the reality of love,” someone howls, “ah, to splendor the reality of love...”
omnipresenting it, so that a red a blue a green aroma pervades the bed
can you realize or will you hallelujah it? — oh, such senses of intimacy, sibilant…

your sense, your sense of taste is refined
to the point you’d drop me on your tongue
traveling me, desire-upon-desire, like a river…

so is exquisite your sense of heart-beating
the way you accommodate clouds and volcanoes in your mouth
disproportions and sunrises, bringing me off, replenishing…

even your sense of sight, your sense of hearing,
of word, of silence, of reverie…ah, your sense of touch…
waterfalls between thighs my whole body, eating me up so unconcentrically…

you see? mind you, or simply finger-imagine me,
verbs like “splendor”, so to speak, they wilderness and tree plants
copper galaxies, graffiti a thousand alleys, and firefly noons
they cranberry horizons, and they granola each waking-with
that’s how a morning love, like this you offer, this ours,
a morning love that dewdrops daisies, like this Sunday’s — you, too, skin?
that’s how it can be splendored with a sense of intimate eternity