Thursday, December 1, 2016

cismando criaturas em v






Vou dizer de você assim tentando nem-tanto encabular. Sem pontos e sem etiqueta, pouco-ou-bastante sentido e sem-lá muita precisão, porque aí te deixo pensando: “Afinal, eu de quem você...?”
Cismo que você tem olhos que enxergam entredistâncias. E te ponho a encafifar justo aquilo que não te cabe: que olhar meu para você te pretende enclausuramento, avesso a uma qualquer liberdade de lançar-se rua, ou acolher aquiescências. Nã-nã. Porque nem hora nem outra vou te tolher saída para o universar as coisas, nem-se num desses voos que, em-provável, deem em céu amarelo de onde a gente passa a enxergar miúdos os daqui de baixo.
Dizendo ainda pouco de você para não te definir em vazios, boca que te torneio é feita de algodão doce, que é para a gente ter vontade de provar na constatação de que, sim, é muito gostosa. Mas é essa mesma boca contornada de sem fim de desejos provocando-tantos-outros-na-gente que vai, dia desses, recusar. De seres humanos que somos, vai também escarnecer mas, por outro lado, tanto-mais-facilmente-ainda, enternecerá. Eis uma boca, a sua, que, mesmo fraturas de tempo que assim-somos, natural que ela ponha nas pessoas anunciações descondizentes, ou desvarios desenganando o que de mais suave eu, ou alguém-outra, cogitaria te dar. Inconclusos-dissonantes que somos, e ainda-bem-que.
O nariz vai servindo para você escolher um gosto que te faça apetecerem sorrisos ou gestos de aproximação. Queixo seu que combinará (com) delicadezas abrindo flores, mesmo em asfalto pisoteado de amargura ou nauseabundos. Ouvidos que te escutarão chorando de contentamento ou de desfelicidades e que também te darão tino para que outros te perturbem, te encantem ou simplesmente te deixem algo indiferente para as lamentações.
Com amontoado de areia colorida mandada buscar lá em pé de montanha de onde a gente vê curso de água seguindo manso, vou te fazendo contornos para baixo do pescoço. E, num zás, sinto ficando tudo divertido, em muitas deliciúras, porque algumas partes de você eu vejo que acentuo de propósito e faço elas quase todas bem circulares, que é isso para dar vontade de ficar olhando muito e deixando a imaginação da gente correr sem amarras quando porventura for ficcionar mão no contato com algumas dessas partes — que bela imaginatura!
Mãos, eu as projeto nem muito grandes nem pequenas demais. Queria muito que elas nunca precisassem cometer crime nenhum. Nem jamais fossem usadas para encalacrar-nem-ultrajar ninguém, mesmo que em certa ocasião você vá ter algum impulso, claro, impetuosos que somos, para dar tapa merecido em pessoa qualquer que te tire do sério. Mãos suas, eu as queria — ah, eu queria... — desatinando sem fim de: carinhos em mim, “mas nunca que só em mim”, penso que você já-de-logo pensaria assim, e então me antecipo, porque então você talvez conclua, mais cedo ou menos tarde, que não teria com que comparar para ir pondo parâmetro no do-quê-fazer-melhor-com-elas — mãos de vontadear e olhar dentro.
Os pés, firmes e serenos como se fossem violão cantando princesas e imperatrizes contra todos os dragões do mundo, ah, os pés... eles entrariam sempre descalços em casa. Mania-minha de barrar na porta as sujeirices que a gente desanda a trazer calçadas quando em andanças de dias em dias...
Você, com altura mediana, pendendo — até te confesso — para aquela estatura mais bonita de todas, mas pois-aqui não te dou explicação mais-nenhuma para essa predileção, e prosseguimos conversadas!
Pés, mãos, braços, pernas, pescoço, olhos, nariz, boca, orelhas, sobrancelhas e cabelos indo e vindo... Tudo fazendo a gente ficar parada até, contemplando e vontadeando quase que entranhar, sabe? Intencionando prazerar abraço gostoso, imaginando ou realizando você na (imaginação da) gente. Essas partes e todas as outras, eu as delineio muito bem arranjadas para que eu mesma me reconheça nelas algum dia. E para que eu mesma vá regozijo-enorme-de-tocar, com os olhos e o coração, nelas um dia.
E é porque eu te faço tal qual te vejo, dorminhocando e por sonhos, um dia. Os dias todos. São tantas-tantas as luzes-de-sonhar... Mas então, mesmo dizendo de você em partes todas essas, me dou conta de que, ah... não me meto nem por um segundozinho a te delimitar, balanceando ou pedindo mais-dentro. Prefiro te ver flautuando, do seu jeito, mesmo se eu tiver que para sempre ficar em longe, e então eu me desaproximarei, de mansinho, sem alarde nem machucações em você, sem desmentir permanências, sem ressentir. Senão-mesmo consentindo. Em caso de luta, nela eu sequer tomaria o meu partido. Faço parte dos vencidos na vida. Penso que, fosse para requerer-excessivo ou impedir, assaz-assim perderia toda a graça. Nem ninguém, fim das contas, em relação a você, em caso de necessidade de luta, almejando a qualquer ganhação, ninguém nem-não conseguiria. Quero você para não perder...


Tuesday, August 2, 2016

flautuar


video


mesmo todas as inutilidades do mundo
ou até aquelas pequeninas coisas
que inevitavelmente se preenchem —
e aos nossos dias — de dias a dias
também precisam do olhar

um cuidado com os sonhos
estar de perto, querer ver, interver
até comer chão com os dedos, junto
estando, com ou sem pendenga, é verde no azul,
lua, cimento, entra, vai e fica, eis o entressonhar

como se faz amar-amor de distante?
nem deve ser brincar-presença, ou pique-escondendo
é preciso acalanto, sol quente, mesmo certo
aporrinhamento de estar, mas estar, só com, é que amar-amor —
e até desamor — vem ser a qual coisa do tal olhar

ver-sorver-oferecer, até bolinar de sobressalto tem hora,
“olha o deslimite que não ficou pronto ainda, criatura”
olhar até o desolhar, olhar de volta,
não tem jeito, o amor — que deliciúra! —
flautuando, mas que coisa, só combina com pluriamar


Tuesday, May 31, 2016

poeminha de (não) miragens


tenho essa perplexidade
de me sentir
horas a fio
ou todas-quase
horas dos dias
em constante
sensação de precisar
entender de nada-nem
dizer possessões
armarias, patifarias, ou quais

que o Foucault (se estude e)
também se descuide
porque a gente merece
bem-aventurar

abertura de enternecer, se indignando
e querer até saber mais, demais
dos risos e mitos e ditos
num bricolar
de imiscuir
recrudescendo
tudo
mesmo-tudo

em vontade e desespero
de não ter e só querer
restou bem-só
assim-que-em-bem
restou amar


Sunday, May 15, 2016

shabby-looking bonds

em suas coisas que desviajam


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    o tempo hoje, desde ontem,
    me acordou sem zelo
    confundindo-se? insensível
    virando a esperança bem ponta-à-cabeça:

    “não dê corda a desejo, coisa vã,
    partituras de viagens — bagatelas! — só te sonham,
    você estranha, estrangeira, mundo de medos, visíveis
    limites, suas-muitas tolices, prioridades? — esqueça(-)se...”

    então foi que acordei hoje fragilíssima, recrudescendo
    uma noite, a de ontem, toda ela incompreensão
    e eu só zelando pelo desejo, era só isso, 
    de pessoinha-assim-de-província, diriam
    desejo bobo, que tenho há tempos:

    só me via indo ver... e tocando... descobrindo...
    proseando... em viagens — como se partituras,
    rua abaixo, rua acima, lua... vontade-nota de estar com —
    “ah, eu me estaria de nova york ou marrakech
    pelo mesmo rodopio — famigeradas, eu faminta

    mas, de repente, ontem, pesou na mala 
    um coração que já viu tanto e, fim das contas, em raso viu

     não revidei, contenda nem foi
     só entristeci

     “como é que alguém desentende a simplicidade
     da gente assim? e desmerece a melhor faísca
     fagulha mais pura.... de encantamento pelo transpassar? 
     mundo, mundo, os nossos tão diferentes mundos... 

    nos despedimos aqui
    sem mais miragens 
    nem devaneios

    tudo okay, vou ao cinema, brasileiro mesmo
    nunca entendi de red carpets, nem-nunca quis, 
    prefiro assim 

    não sinto sentido no sentir
    sem a ranhura do simples 

    tudo certo, não me espere
    não me importo
    fico para trás.


    Imagem: Part Blake, part Tolkien, all England... Landscape of the Vernal Equinox, 1943, Paul Nash
    Música: Cristo redentor, Donald Byrd 


Wednesday, December 23, 2015

simplicitas

majores pennas nido


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me cabe um espaço que 
não me ocupa, se encaixa, desentendido até,
todo fresta, em suas obstinações não coisais...

tem dia que um outro espaço bem próximo, solerte —
sonolento para as coisas de fazer tum-tum,
tum-tum — alardeia, faz cena, diz atrevendo-se
que preciso me "compor de outros
corpos, taças, tapeçarias bem excelentes"
e deixa escapar, no entanto, a tão só
necessidade — à sorrelfa — de haver mais um corpo
distinto, inútil, partido
perdido —
assim, para lá, para cá, omisso
como quer fazer deste, aqui, meu — contumaz

(que me cabe todos os dias de um espaço)
de ofícios deslizes relógios foguetes e
patifarias, notícias com seus martírios
e estrelas nonadas lembretes, suas merdas
galopantes e enterradas, ah os meus
braços e pernas e sorrisos e equívocos
feito pêndulos — cheios de vontades
madruguentas pendências (mas minhas!) —
com que tento manter aceso o acaso, contornando
pra longe, o mais que posso, as manadas dos que se dizem
fora de norma, mas tão coisais, pobres coisais...

(eles, que não cabem sequer num espaço)
pois querem, mas no fim das contas só desconseguem
impor maledicência nos inutensílios das coisas
na simplicidade do viver que naturalmente há
na desobediência de falarmos
com (um)a não língua, não língua... mais nossa, também mais minha —
rasgada de anteditos, de não luxos,
sem brilhosidades, sem drogarias, sem — e que hoje
tempera senão no riso que
enternece das coisas 
dos sons das coisas dos pecados e da poeira
das coisas e da esplêndida radiância
que há nas frestas e nos desvios do que ainda respira — todos
aqueles episódios da mais magnífica
contemplação:

a simplicidade
das coisas é o que
põe ninhos de asas
para a gente viver de folha em festa, arvorando
ainda que eternamente
ao rés do chão

(eis o meu espaço-corpo)
com que me sirvo da vida e da vida das coisas,
e vivo
e também mando
irem tomar na verve, mais pura, de-sem elegantices
os ricos de todas aquelas cenas
que ressoam as insuportáveis
sonsices de viverem, afe!, tão fresquinhos
e de solicitudes com sua prataria intocável
em sala de repimpar, e tudo,
e enfim, tão em perfectum
mas sendo o vento deles feito de dias 
no fundo, no fundo
tão-bem bestiais...

(música "Kaira", de Ali Farka Touré & Toumani Diabaté)


Thursday, July 16, 2015

mãospoemassem


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duas mil noites atravessam os meus dedos
lá fora o mundo precisava inexistir, de espera — o som
de dentro do quarto o martelar de uns gestos — únicos
ainda seca, crua demais, por fim indissolúvel — a colcha vazia
até virem os olhos fechados, o escape, a ternura imaginada, o ímpeto
zooms por baixo das tentativas movimentam-se a uma fresta meredith-monk
de pecados sem lâmpadas, a respiração que se perde, violinos tocando cantatas

o tempo todo
na cabeça
o poema transvira-se

e é quando mantenho a impressão de que
umedecendo-se entre um desvão de serenidade e loucura
todas as palavras passaram por mim
aturdidas, sem sintaxe, galopantes, rapidamente, e mais, ao mais...
ainda, preguiçosas-já, distendidas, e(n)fim

vasculham duas mil estrelas as noites já sem pudor, esvoaçantes, lá
na parede do quarto, tremulando, telas floral fields — os seus
céus azuis, alaranjados, três linguagens se arrepiaram a toque de caixa
e tudo verdeia de novo
devagar

impresso é de certo o gosto de combinar as palavras —
(que) redemoinham por dentro, entram e saem, esticam-se, crescem —
o humano, a carne, no chão, pro céu, que escorre —
em cinco pontas, penetrando, indispondo, e lambendo, e entrecursando

a noite
como rio
de um poema
que se espera
de vorar


[Crosslights (2009-2010), por Joshua Bronaugh  |  Música Prostitute Poem, da banda Gong]


Wednesday, July 1, 2015

sua nota (de)(s)amor


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suas e duzentas e quarenta e nove asperezas de desadocicar sabores mel
e (as)sim eu fico de miragens à flor da pele, descalça fodida em rasgos
sensíveis são, afinal, todas as horas de perceber
que a história do outro o sorriso a mágoa o rancor até as cutículas
e ter-jeitos de adorar sofrer sentir sede dores e dedos e mais
o diabo-a-quatro de purpúreas verdes cruas verdades e descalabros
do outro despertam infinitas circunstâncias a mais,
muito mais do que qualquer que seja das minhas qualidades ou tolices:
“ah, menina, o que eu mais quero enfim desvê de ver só você
é um tão muito flertar e beber e me atracar da saliva de pernas abertas ao outro
e servir de respiração a todos os que terão fome de mim em gozo”

eu não, eu tinha palavras hoje se contorcendo pra contar só pra você
da imensidade e das eufóricas e incontroláveis miragens
à flor da pele que me transmutavam a caminho de casa,
os carros no meio da avenida pedestres pés e sonhos talvez só indo,
e eu na boba expectativa de estar casa cama letra dedos dizendo sobre
como seria, aliás, te levar pra conhecer num primeiro dia uma das minhas
mais amorosas estrelícias, de madrugando-se,
pequenina flor do ano que, se vista do mirante de onde
daqui a três meses já se terão passado muitas eternidades
de prelúdios, como este, terminaria recendendo a celebrações, que... se...

ah, elas, as estórias e estrelícias e ternuras, eram todas hoje suas
fiquei que não me suportava, enquanto corria de lado a outro na rua,
de explosões pra chegar em casa destrancar o céu a chave o tapete de entrada
da não rotina que seria a nossa, com estrelas luas luísas inaugurando a vinda
mas que agora despenca e que porra é essa? nem sei mais desreconheço sendo

sete e trinta e três da noite e ainda me faço de embrulho
a rotineiras solas de sapatos que me dispersam a coragem o som
a vontade pra tão apenas desdizer aqui no imenso vazio que retorna
de um quarto chagall de modiglianis elásticos com que pelo menos conter
o grito renhido de adeuses e(m) ágapes agonias e eu de novo descalça fodida
em conjeturas ridículas projeções, uma talvez certeza, acho que nem seremos
e desiludo enfim que no ínterim da história você nem-não estará


[Study for the curtain of The Firebird by Stravinsky: “The Enchanted Forest” (1945), por Marc Chagall
Música de Baden Powell, “Prelude in A Minor”]


Sunday, June 7, 2015

o_estopim_do_amor



video
     Ná Ozzetti & André Mehmari, Nosso amor (https://youtu.be/04CZAOdkoxQ)


Pensou então que o silêncio pudesse conter uma palavra que explodisse. Fosse de vez só a arruaça toda. Com o dizer daquilo que apertava na garganta. Se assim seria justo ou injusto, se as pessoas entenderiam, se isso ou aquilo outro, importava? De segunda a segunda, o pensamento era este. Que o silêncio dê agora de pôr os pingos nos Is!
Era necessidade. Muito grande, como se diz. Pois-que se imagine. Tinha conhecido o Amor. Do jeito que lhe contavam na escola, em mesa de botequim, depois no trabalho, em fila de banco, livro, supermercado, nos cantos diabo-a-quatro da vida, o Amor era algo assim... longe, longe. Feito de bastantes coisas — incompatíveis. Ou então perto, perto. Como se fosse tanto de café-com-pão, café-com-pão, e então... dessa forma... que era sem jeito, sem rosto, sem nem descontrolar minuto de relógio... não-queria-porque-não-queria. Quis.
O que vinha sentindo, ah... lá-isso era coisa pra médico nenhum explicar. Amava, abria os olhos de manhãzinha, encontrava travesseiro só seu, ali, ao léu das intenções. Daí-que procurava jeito de não ficar com sensação negativa pelo Amor só por conta de... Estava sabendo amar? Fazia muita falta aquilo de ter-que-ter sentido, forma, rosto, voz nem que fosse de sol rachando, olhar mesmo sendo de chuvisco, ou sustenido. Não precisava deixar mais claro também que amava? Trazer pra mais perto o Amor? Parecia tão longe ainda...
Espremiam-se as carências, tique-taque ia dar na lembrança do que ainda será. Eis que o Amor vinha sendo assim, espreguiçando-se, em tédio? Querença de cá, apenas os tais floreamentos de lá. Os dias redemoinhavam na virtualidade das línguas, era por isso! E as coisas foram caindo na distração típica da vida que se vive sem pulsar. Vizinhança-ali, cheia de quietude, como se sertão. Pequena — a cidade. Tudo feito de papel. Os dias, o trabalho, listas de compra, tonteira que se põe à mesa todos os dias, sendo de silêncio, de barulho; tempo cozinhando, tempo remexido; sim, aqueles momentos de caçar a fumaça dos vazios... a mochila de carregar as coisas de lado a outro, pra lugar nenhum. E aqueles anúncios? de gente vendendo pão de mel, gengibre de acerola, poeira de cimento, ou o quê? Coisa de cidade pequena, até as solas dos sapatos. Ia tudo indo, a vida. Sendo que, do outro lado, do lado do Amor, a cidade também era uma cidadezinha, interiorana por assim falar, com as respectivas distinções de distância, a gente sabe, mas naquela mesma toada de pequenaria com que se vê passarem os assuntos. Que eram tantos... o Amor sugeria. Se verdade ou não, tão só era como escutava o Amor contando, e havia de acabar achando que. Cansava-se de acreditar que era a pessoa mais importante do mundo, que isso, que aquilo. Mas assim, no concreto, muito pouquíssimo, quase um nada. Fala, fala, falação de Amor, adoidadamente. Pessoa mais importante do mundo, imagina! Duvidava, sentia saudade, quando é que... aquela angústia nunca acabaria? Por fim, acreditava. E ficava de esperança, esperando, esperava.
Sentia, no entanto, vontade de ir também pra outro rumo. Até em Lavras, por exemplo, dia desses, provar uns biscoitos de quinoa. Sempre dava isso — de ficar querendo aquilo. Também tinham contado que no Mato Grosso, em Brasília, Salvador, no Pernambuco, floridas... noites de luar, ah... Era um bocado bom de tantas outras localidades. Será que numa estaria mais perto, mais longe, inexistindo ou só sendo — o Amor?
Segundo tomara conhecimento, era ali, num interior do outro lado do mundo, imagine-se, do outro lado do mundo, só podia mesmo, que o Amor prometia. Cheio de gosto que não precisa passar por cima de outro gosto pra existir, relatavam. Cidade pequena também. Porque, como diziam, não se necessita de mais de um palmo de outroras pedindo-se de presentes pras auroras pulularem... Do que mais se precisava, afinal?
De sentir. Atravessar. Pertoamar. Rosto sem rosto, Amor que é Amor tem que ser-sem-conter-se, e sem o tal fingir-lá-rá-laiá, ouvia alguém cantarolando a duas esquinas de casa, foninho no ouvido, distraindo-se. Okay, Amor até existia, mas ainda estava de longe. Porém, precisando, pensou, ah... precisando, bastava que... que... ligasse as matemáticas, não, não, as matemáticas, não, as geográficas fábricas de ver e ter e de conversar e até de pôr gosto e desgosto nas coisas e pessoas, telas teleféricas, não era assim que as relações aconteciam nos tempos de hoje? Mas mesmo que sem... sem serem de tocar? Sim, diziam, era magnífico, moderníssimo, bonitíssimo até, por conta das tais soluções engenhosas. Acreditava, portanto. (Con)sentindo-se.
Passavam as horas, o quarto continuava vazio. Aquela promessa de juntarem as coisas, os pratos, colheres, triunfos, quadros, papéis, canetas de escrever miragens, lápis de colorir, livros em pilhas de livros, cacheados anoiteceres em penumbra de estupor ou esplendor, tudo o menos, tudo o mais, até as judiarias... A luz e os cobertores usados em tempo de chuva. Porque, fosse, era pra dividir até os resvalos, as impertinências, até as ruminações de de-noitinha, não era? Os lapsos, desfeitos, os muitos aconchegos e atrasos. Era pra ser assim. Tem-que-então que a vida segue.
Os dias correm caminho de maratonista. Tinha que ir estudar, ora-essa. Seria. Iria. O sonho de sonhar com as coisas todos os dias não era pra ser deixado na esquina entre a rua dois e a quarenta e nove. De serenos. Eram pra durar, cantarolar. Sonhos. E aquele... de ainda ir pro estrangeiro ver se lá as pessoas também comem caquis? E tantas outras frutas. Ah, adorava frutas. Fosse de habilidade com pintar, também pintava elas todas qualquer dia. Ou de escrever, novelava. E assim por adiante.
Que o silêncio contivesse, no fim das contas, palavras que naquele dia explodissem. E então teria dito que não acreditava nas ladainhas contadas, coloridas, meu bem, tão apenas ao sabor de um fim de semana de amizades. Coloridas? As amizades. De dormir com, bem se imaginava, é claro. Aqueles dias, do Amor em companhia que não a sua, tinham sido bons, é? que bom então, ah, muito legal, que especial... Que nada! Pois-que ficasse com eles, usasse e aproveitasse, e se sumisse. De vez, então. O tal Amor. O que não seria só prudente, mas decente, né? Porque... porque não estava com a mínima disposição pra ficar ouvindo cenas sendo descritas como se depois de noites aos acalentados movimentos de regozijo, com outrem... Tivesse a santapaciência, não? E então ainda vinha dizer, no dia seguinte, dos tim-tins, como se nada tivesse de fato acontecido, que... que... Ah...! Que coisa mais esquisita! Não, não, daquele jeito, não queria Amor, não. Concluía. Tinham-lhe dito, em contrapartida, que bobagem, que era ciúme, maledicência, coisa tola encarar os fatos assim, tão precipitadamente. Fundamento, comprovação mesmo, não tinha. E enfins...
O quarto agora está vazio. É como sempre. Não tem mel na despensa, onde já se viu? nem nunca terá. Sabe-se. Fazer o quê? Deu uma piscadela pra ver se pelo menos compreendia. Tinha sido devaneio, né? Ainda estava tudo lá, tudo do mesmo jeito, tal como está, sem decolar. Bom-que. Tudo certo. A noite. Sem luz. No ar. A tela. Iluminando mais um sem-quê, dos dias. Lembrou, então, que pensava ter encontrado o Amor. Que é isso, meudeusdocéu. Ocorria que, tão só, o Amor inexistisse? Ou tinha só relampeado certo acontecimento de eternidade, mas voltado pra longe? Voltou. Pras mesmas conversas de rua, de botequim, nos silêncios das matérias de jornal, também no ruidoso das páginas dos livros. Só cenas. Era como deveria ser, não era? Uma coisa, entretanto, se pressentia: entrasse naquele avião, fosse pra longe daquele jeito, o Amor não voltaria mais. Nunca mais. Como é que amor que não quer nada ia durar? E então, às dez e trinta e três da noite, num frio corredor de aeroporto, gente pra tudo quanto era lado vindo, indo, partindo... eis que o Amor ainda estava ali, querendo prosa, pedindo retorno, que não tinha sido nada daquilo. Explicando-se. Coisa pra qual nem justificação havia. Desviando-se, dizendo absurdamente de leros, boleros, promessas e tantas conversas que, ora-bolas, de verdade nem eram, nem seriam. Foi-se, enfim, o Amor. Tudo agora, de novo, no seu devido (não) lugar. É como sentiria.
E então acordava-se.

Friday, May 29, 2015

the shudder of poetry and (f)(l)ight





Simply glorious, it is, when one feels embraced by Poetry in its relation to the living. There’s such a Whole prone or compelled or willing to achieve freedom by the double movement of purging away and espousing what can be alluded to as “elements of fleshly existence”. Even above and beyond, as imaginations. In those works of style, beauty, critique. Pieces of liberation, as a matter of fact. [And as a matter of Dream.] (Dis)(re)engagement, experience, and passion. True motion. They butterfly, disturb you, they dance [around and toward]. A Vision. Today, I opened the page-window of my morning bedroom; Enchantments leaped off the page at me. Incantations on air. Everywhere. Reminding me of so many things… To see, wonder of, desire, grapple with, struggle against, clack along, beat for. There are and there are not cars, clothes, lanes, thrones, howls embedded within. But Joy, there is much Joy. When you’re invited to Poetry realm and have conditions to step into, at least for a fleeting whenever, there is much Joy. A primary source of pleasure courses through your veins. A vivid, pennate, life-swarming sensation that you exist. Even by delusion or engorged by droves of brutalities. Even in that paltry space left to you. You exist. That’s big, beautiful, and pulsates. No possible resentment, no blame, no realities you cannot shoulder, no ecphoneses of blah-breathtaking whatever hurting you because that’s offensive both for your intelligence and sensibility to listen to/read it in a dear expanse where should lie dulcet secrets or, at most, pathetic poems waiting to be written for the universe...for you; no exasperation, no helpless waiting-for-the-sun, no lies being blown toward you any longer from close-by grounds or distant (land-)lines; no systematic remaining but a very natural one: that of the spirit, “into its own changeless purity”, or indignation, or extreme passion, explosion, compassion, desire…just yearning for life. As if rejoicing in such exhilarating moments. Transitory, or even visibly inexistent at all. But yours. Your own vision. As unique as shared as relentless in its incantation to make you perceive of your effulgent or wrecked life and, nevertheless, walk on air…
(I cannot remember to have received a gift like this Yeats which lit me up so delicately, passionately, and dearly this way. All my gratitude to poetess Eabha Rose, a precious friend, the kindest soul I’ve ever known who’s always beautifully willing to achieve freedom herself and so generously blows it toward you. By writing, with her poetic (uni)verses, her own Poetry exhilaration. And then, these passages excerpted from the Yeats she sent me as a gift this week, dazzling me with much-much Enchantment):

II
I cannot imagine an age without metropolitan poet and singing girl, though I am convinced that the Upanishads—somebody had already given her the Pyramids—were addressed to the girl.
Certain Upanishads describe three states of the soul, that of waking, that of dreaming, that of dreamless sleep, and say man passes from waking through dreaming to dreamless sleep every night and when he dies. Dreamless sleep is a state of pure light, or of utter darkness according to our liking, and in dreams ‘the spirit serves as light for itself’. ‘There are no carts, horses, roads, but he makes them for himself.’
III
The Spirit is not those changing images—sometimes in ancient thought as in the ‘Cimetière Marin’ symbolised by the sea—but the light, and at last draws backward into itself, into its own changeless purity, all it has felt or known. I am convinced that this ancient generalisation, in so far as it saw analogy between a ‘separated spirit’, or phantom and a dream of the night, once was a universal belief, for I find it, or some practice founded upon it, everywhere…
(“Book III: The Soul in Judgment”, in A Vision, The Collected Works of W. B Yeats, vol. XIV, edited by Margaret Mills Harper and Catherine E. Paul.) 

Sunday, May 10, 2015

the invention of wings in two lines



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Arvo Pärt’s Spiegel im Spiegel (for cello and harp)
Fred Tomaselli’s Expecting to Fly (2002)


Sounds to listen to in the harp of night. Cello odors hold up the air, as on the far edge of the horizon a thin rain begins to fall. “The story, where’s the story?” Puffed-up giggling, stiff-backed forthwith. Nonplussed feelings for a second, and then “Oh no, it’s just…sheer stuff of Dreams.” How to burst out singing, singing, singing as far as the song can go, like a shrill chanting exploding and stretching out of sight? “An extremity of love,” you guess
It was once upon another time. Now, polluted senses blurred eyes brutal gasps cough sigh cough. Clouds & wah-wah…pooow! Squeezed together like fingers frozen to the spot. Where are you? They. They are. So we, where’s the where in which the wish’s begun to stir? For us. To see. And see. See & skin. Even more vividly. No bottled-up ivories, crooked swords, no swords, what’s less, what’s more? “Oh babe, it’s sheer stuff of Dreams.”