Sunday, August 24, 2014

outonais II

pras curucas lindas-cá... da minha vida...


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              antes os pontos
              nunca tivessem sido feitos
              pra interferir
              nos outonais das coisas,
              da gente, de tudo
              que apenas tão singelamente
              consegue ser
              mesmo assim... do(í)do
              de encantável, sonhante
              eternizado em poeira
              de texto e esperança
              pois-feitos ambos dessa reticência
              que esplendora aconchego
              pra querer e desvairar

              música Leaf, do grupo Poliphony, álbum de 1973
              foto da tela Bleu II, do tríptico Bleu I, II, III de Miró


Saturday, August 23, 2014

autumnals

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              raining-here is
              like. . .fading skies

              multiple in their wordless
              tints-&-nuances, as to

              slide over, (in)
              (to) their most
              sacred touch:

              galloping, the memories
              just collapse onto
              all that blurred care to be

              inside mirrors of
              allover-like boxes for living in

              and you, you in the end
              just smile, or will try your most,
              your very best flakes, as if
              still in hope, to keep up with—
              even in the paltry space
              that’s left you—
              the shattered motion:

              lost, you find
              yourself there

              missing the line
              on the creased landscape
              as wearing, you-yourself,
              a packed-out oblivion

              yet, the autumnal textures—
              still a breath, still la-la-la—
              come to remind you
              to extol the alate, unclothed
              fantasies and springs

              humming-&-swaying,
              like. . .with no rue
              no scars, no any
              packed st(r)ain

              (and even when)
              slippery is the edge
              of their solitude—
              the clouds’, their unveiling
              and cloaking, but all-in-all
              just listen, or fictionize:

              there’s a cajá-manga tree
              or here, through the window,
              the very apricot flavor
              holding up the air

              imagination en bloc
              your heart seems to
              burst at the seams,
              close-to. . .after all:

              the warm drops reach
              the grey asphalt

              you se(ns)e
              autumn is still
              there, the more invisible
              in its flames should it appear
              the stranger and warmer
              are your reminiscences
              from the dulcet rays of sunshine

              finally. . .like. . .no one will sob
              for those strange feet-
              &-sprinkles-of-rain—
              immersed in clumsy
              ticks-&-tocks—

              mingled with yowl(ing)s
              of humble despair
              or such lacerating accede,
              silent them, like. . .unseeable
              or profound enough
              as unsayable is also
              the moan of their no-name,
              your no-name, any(every)one’s
              no name. . .but anyways:

              the little cat-lady,
              just another scene
              springing up from the noon—
              like. . .a reverie—
              slides away from
              your guard-down lap
              as to paw the back window—
              again, once again
              here you are, this same window—
              through which, along
              the horizon, lies
              the cajá-manga tree, the lone-her,
              eager for that same
              recondite rain,
              remote and ebullient
              in its autumnal hope

         song Luíza, performed by Duo na Corda
         painting Untitled, 1948-49, by Jackson Pollock

Wednesday, August 20, 2014

outonais


  video
música Sunny Day Rain, da Hendrickson Road House
xilogravura a cores Guarás, 1945, de Oswaldo Goeldi


Chuva-aqui, que cai de mansinho, é como se… céus sumindo. Múltipla de matizes-e-nuanças, sem dizer que. Então é assim. Que se escorrega pra dentro. Em querença de manter a sagrada permanência outonal
De janela familiar, folhas ventando e trazendo longe de volta aquele compasso de olhar entrando-nas-coisas. Desmedrando as querenças. Achando-se de vida. Num zás as lembranças naturalmente vão-se espatifar sobre as borras de uma ternura por ser. Candente. E lançando-se. Neste mundo farto de espelhos invernosos. Com suas idiossincrasias, ah... A regrar cabedais. Quadriculando existências, paixões, o devir
Mas você, no fim das contas você precisa rir e investir algumas últimas tentativas de esperar que, mesmo no exíguo chão descaminhante, por comer e por pisar, some-se — às migalhas aqui-ali chapiscadas no ar — um ainda movimento faiscador de luz:
perdendo-se, é aí
que você se encontra
lutando e deixando escapar o fio
condutor em meio à crua paisagem que
amarrota até mesmo o que de si
recusa esquecimento e amargor
Entre fracassos que você residua de tempos em sendo(s), ainda assim as imaginaturas de outono — em meio aos rostos cinza-frientos... ah, elas decerto cantarolando — vêm pra desesquecer em você  o que talvez seja possível ainda des...cobrir. De tessituras primaverais
Também não fica sem custo olhar através da janela e sentir as casinhas de telhados azuis tão em falta de. Tantos. Gracejos. Nem as pessoas que, ali dentro, maltrapilham destinos tão sem. Ainda que em dor, pra lá e pra cá elas, as outonais costuradas nas folhagens coloridas de antes, ressurgem... como se, sem mácula, não quedassem de enternecer ressonâncias, querubins. E é que, embora escorregadias, com receio de passo, elas escapolem das margens de uma tristonhice inevitável diante da chuva. Que cai. De nuvens vestidas ou descalças. Dias-após. Como se... clareando tanto quanto embaçando a vista. Em brilhosas eternidades, que pedem. Que você ainda ouça. Ou imagine só:
tem uma cajamangueira bem-aqui,
através da janela,
ou você apenas pressente
um gosto de leite de amêndoas no ar
Pois o que se vê, o que se vê... Vai muito pelo imaginar se vendo. Como se... longe, e tão perto, permanecessem, relutantes, as fagulhas. De esperança. Que te veem tão só
E você vê. A chuva pulsa. Mesmo caindo. No pálido asfalto da vida que é
E assim você sente. Que o outono não se despede das miragens mantidas pros dias de sol raiando. Porvir incandescente. Tanto mais alheio ou caloroso — ele, o outono não cessa de proteger os compassos contra a friúra lancinante, implacável dos dias. Como se... enfim... ninguém se preocupasse mesmo com os estranhos pés que cimentam a chuva de um inexorável dissabor tique-taque. Pessoas, objetos, distâncias
É que assim seguem misturando-se dias em dias. Aos gritos de desespero, de consenso, silenciosos, violentados... transbordando invisíveis ou profundos demais. Pra atreverem nomes, mãos, olhares, caminhaduras que vêm e vão. E que ficam sendo aflitas e indigestas. Mas e se isso agora desimportasse restando mais vivo o que preserva o outono das coisas? Sua euforia, mesmo a grotesca vontade dos quixotescos desvarios, é o que assim agora é e sonha:
uma gatinha de pura lindeza, aqui em cena por simples epifania de olhar,
escapole do colo e vai logo pôr as patinhas
naquela mesma janela que via o céu de-início
em gotejamento de ontens, tristonhos e sem,
mas que encontra nuvens repousando já sua esperança na cajamangueira,
solitária, esbelta, sutil,
como se... recebesse a chuva  em mais uma de suas outonais miragens:
a de cismar devaneio e então resistir
à friagem, cortante, ruidosa,
pra tão só ainda, tocando-se ali de tais patinhas curiosas,
ser e se ir de sempre olhar


Sunday, April 13, 2014

gentes historicamente-dor, brasis em seus sem

o discurso de Luiz Ruffato na Alemanha



Eu não tinha ainda lido. E, ainda que vontadeando às largas ler o quanto antes, só fui ter com o discurso-este — que abriu a Feira do Livro de Frankfurt, em outubro último — por agora. Eis os tudos: a gente chora, em tantos, por dentro e com todos os cantos, mesmo os invisíveis de boca nossa, quando lê o que foi dito-lá pelo escritor Luiz Ruffato. É que dá entristecimento por as coisas serem aqui-assim — em justamentes. Há todo um engasgar-por-certo porque a gente então sente lá-fundo que é mesmo assim... como se a história fizesse pra mais de 500 anos de judiarias sem fim com os daqui.
É claro que o discurso dito "prevalecente" fica sendo outro país-mundo afora, a gente logo sente — já que cheio daquelas simplificações baratas de happy life segundo as patifarias infinitas que dão muito nos nervos da gente! Ou sendo: pras tais "antas poderosas", em primeiríssimo plano. Também, e em larguíssima abrangência, discurso outro praqueles covardes — do tipo: não leio nada, nunca li nada, nunca vou mesmo ler nada; à parte isso, sigo vomitando, com muita autoridade, todas as inverdades e barbaridades do mundo — que nem-sei-como-têm-coragem de apregoar isso que é papagaiado pela midiazinha marrom. Aff! E, infelizmente, ainda fica sendo outro o discurso que é metido goela abaixo daqueles que residuam seus tudos em sem fins de nadas — por necessidade, pusilanimidade, exaustão, cumplicidade-míope e/ou tão só dormência-dor.
O que continua dando mais nos nervos é uma tal classezinha disposta a "entendedora", que vem pelos corredores — banheiros, cozinhas, bares, restaurantes et al. — se pondo a repetipatatá, como se o sentir da gente fosse literalmente um penico, e dali-de suas posições muito confortáveis em amplas salas de jantar (ou mesmo nas escadarias de uma ilusória "superioridade" acreditada — logo, defendida), que "este Governo, anarquista-socialista-petista [ou qualquer outro -ista cismado ali, de seus carros tão misantropos] é que está acabando com o nosso [opa, de quem mesmo?] país...". Que isso e aquilo outro... Ê necessidade da tão Santa Paciência, minhanossa! Ora-vixi...! Que tem gente repetindo esse ridiculismo todo — tem! A gente escuta, a gente sabe. Dizem, no mais da insensatez, assim: que a culpa da nossa atarantada miséria é "deste atual Governo". Mas aí, pralém da Santa Paciência, eis desejo é de berrar de volta pra eles: Santa Ignorância. Porque, pela primeira vez na história de um país subalterno como o nosso, este que eles etiquetam tão estupidestrategicamente como "um Governo horroroso" é o que, pelo menos, vem tentando — como dá, é claro; como as corporações imbatíveis deixam, devolvendo aos que gotimetram suor e dor nos subempregos "ofertados" as tais migalhas bem-mesmo miudinhas; é também como as quais "elites nacionais" ainda admitem, sem que o "estrondo" sobrepuje o deles "sagrado esquema produtivo"; como é possível fazer pelos maltrapilhos sem ser morto na primeira emboscada; e, ainda, sem morrer de desgosto com a mentirada toda fabricada pelos papagaios midiáticos. Et al. Enfins! E aos bocados, a gente sabe, o discurso-outro-este-da-forjação-braba ainda por cima ressai com aquele infinito quê de alvo errado, é mais-que-óbvio e o que dá até enjoo na gente  já que contra um Governo que pelo menos vem tomando a peito a missão [já pré-imposta pelas tais "antas poderosas et alli" como impossível] de reduzir a atarantada miséria da gente, o que, aliás, ia e vai sempre contrariar elas, as grandes antas e seus sectários, mesmo os da tal classezinha-especializada, a gente também sabe... Não é preciso atravessar oceanos, não; ó o falatório todo aí, no mínimo muito pertinho: basta ligar a teledistorção dos dias todos ou conversar com os ignorantões-da-vez, que por decerto até adoram ser os macaqueadores das patifarias todas. Mas a tristeza enorme dá é de a gente pensar assim: será que tem gente que acredita mesmo nisso ainda, nesse consenso fabricado tão grosseiramente assim? Infelizmente, tem. Aos zilhões. A gente então sonha que isso — a patifaria toda, esta enfim "burrice em diversas cores"  pelo menos fique mais rarefeita...e menos perversa. A cada dia. Sonhemos. Com joelhos menos maquinais. E que se multipliquem as tentativas. 
Por um de enfins: é até estranho quando a gente ousa mandar às favas esse pra-mais-de-meio-milênio de judiaria com a gente... Mas então que seja assim-sempre: pelas vias de um discurso lúcido, sensível, com primor histórico e que, em vez de papagaiar uma conversinha de pandegosos vazios, ponha o dedo justamente nas nossas veias abertas... Isso que tão bonitamente, e com honestidade-além, fez o escritor Luiz Ruffato! Eis o bonito-que-há no Sonho, no renovar o homem usando borboletas. S.a.l.v.e!
[Créditos da imagem: Frankfurt Book Fair (logo) e Lucio Ramírez (foto). Uma nota: o discurso foi disponibilizado na íntegra pelo próprio autor.]  
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Frankfurt, outubro de 2013 | Luiz Ruffato
O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro — é a alteridade que nos confere o sentido de existir —, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas — ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania — moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade —, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios — o semelhante torna-se o inimigo. 
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais — ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia — são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo — amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro — seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual — como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.

Wednesday, December 25, 2013

farewell [or the spiral]


Ripples, 1950 | by Escher 

[Tear-rolled face observer] Crimes of humanity, should I forgive them? posture them? simply abhor them? We all take part in many; hide others upon myriad others. We even find them beautiful; they are published! Gentle crimes… That little boy. Lying on the ground. Dismantled? In laughter, bursting out? Unstable. [Lunatic-him and her, in all her to-no-avails] Seven, maybe a hundred years gone. Plausibly? A little less. Since his last smile? His break-down. [Inborn.] The crashes. And he lashes…out. His motives. The very shot-down. How to argue over them? Such impetus, he gains. Toward. And so against...against...against. What, against what, against whom? Walls upon walls, the shocks. Reminiscences. Attempts. Re-re-re's...inexorable replies. Many roads, in the middle of them. All. And nothing. His pain. Insurmountable, perhaps. And then...[revenge?] Or just...a lack? Myriads and misunderstandings.
Mother Father Sister Acquaintances Friends. [A farewell.] Where? No limits. There are chains. That little boy. His losses. Struggles. Against. [Un]motivated? No land(s). No reasons, with no end. A light. But again, his torments, no voice. A cloistered. [Evasion.] Environment. His death. To life. A re-beginning. Recurrent, spiral. Another dead-end? Impervious, adamant, virulences. Turmoil gates. No one. No place.
Everybody knows but no one—indeed. That little boy had his motives—the Impossibility? Bearing up against demons—of solitude, parsimony, deceit. There's empathy for him. Here. And his pain for having suffered—his particular way to dismiss? And no one, not even himself, being able—to back down. Poor boy. Until he finally decided—to wreak his revenge. Maybe he didn't find himself—any way to accept and understand...and just...wanted to fly and fly away...far-distant away...
Would there be once upon a time a person willing to...? World-world, fiend-world...fraught with brutalit(ies) and coward(ices). World-world, asphalt-world, deprived of so many ineffables. Every(any)where. Ample-follies them. The boy, panicking [or indifferent, who guesses], will be impervious to caress. And he might refuse, not for being evil, but feeling estranged and even him-the-hesitant, he will dispose of the texture, the touch, and the hand. The kissingbirding in-being extended toward him, here for him, will be...what, displaced? A god-damned shame, the gesture, an attitude...of despair. And of pain. His posture, her absence of composure—the motif, a reason?. Perhaps…but there will remain, just listen, not that one-sided scattered skin...but a dampened, even a next-door shared-pain...