Sunday, May 10, 2015

the invention of wings in two lines



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Arvo Pärt’s Spiegel im Spiegel (for cello and harp)
Fred Tomaselli’s Expecting to Fly (2002)


Sounds to listen to in the harp of night. Cello odors hold up the air, as on the far edge of the horizon a thin rain begins to fall. “The story, where’s the story?” Puffed-up giggling, stiff-backed forthwith. Nonplussed feelings for a second, and then “Oh no, it’s just…sheer stuff of Dreams.” How to burst out singing, singing, singing as far as the song can go, like a shrill chanting exploding and stretching out of sight? “An extremity of love,” you guess
It was once upon another time. Now, polluted senses blurred eyes brutal gasps cough sigh cough. Clouds & wah-wah…pooow! Squeezed together like fingers frozen to the spot. Where are you? They. They are. So we, where’s the where in which the wish’s begun to stir? For us. To see. And see. See & skin. Even more vividly. No bottled-up ivories, crooked swords, no swords, what’s less, what’s more? “Oh babe, it’s sheer stuff of Dreams.”


Sunday, May 3, 2015

riverbed


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        “Au Hasard” by Dans Dans | [Figura solitária/Untitled, 1957, by Goeldi]


hailing the arrival of new wor(l)ds
with a cut in the mouth to drain the silence
she, who’d promised not to hark back
to the time when a first dawn flashed up before her
like a pelagic flower born of the abyss, effulgent, she
was in her spot, quiet, disgruntled harmonies
were perhaps…pervading the bedroom as a damp chill
slunk across the anemic-lighted asphalt outside
graciously rigged with a dragon fruit aroma at that time,
and the neighborhoodstretching itself awake
this and that arousing handfuls of poetic imagination…
the real, “yes, images burn once they touch the real,”
and so it went: the morning lit up her loneliness
while she set a white page down on her lap
and just remembered, gloomily enough, that they
didn’t even have or take a photograph
to thunder through in days of (riverbed-)distance.


Sunday, April 19, 2015

no more songs


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Slapp Happy’s “Moon Lovers”, in Ça Va, 1998  |  Keith Haring’s Untitled, 1984


Três horas da manhã. De fora do quarto: uma coleção de desentendimentos impõe entrada sem dose. Se sim, judiaria. E então o sonho se despalavra inteiro (n)a noite que tinha acabado de ser. Que era pra ter sido: esplêndida prolífica intensa em tempo-regozijo de alucinar o diabo a quatro, e o que mais. Nunca (mais) será.
Ali, decerto atarantado por não saber ver, um teclado de computador pensa que escreve a seguinte frase: “À única estrela no céu. É hora de rasgar-se boca. De beijar a lua. E tão mais: de dizer tchau”.
— Um dia, quem sabe… os sonhos são.
— Mas, meu bem, você não sabe não lembra não sente não compreendeu ainda?
— Que é noite de rebentar amor?
— Não, quantaorgânicaingenuidade, meu bem. As coisas hoje em dia são tão operacionais...  
Três horas da manhã. De dentro do quarto de dormir: sono que inexiste. Café fervendo na boca maior do fogão livros espalhados na mesa de ler e digitar coisas sem nome com ou sem sentidos pululando de vontade de desvairar sonhos como aquele casal de proparoxítonos passos que é exatamente o que se escuta borbotando na rua sobre a dor a miséria dos dias os recônditos ser(t)ões que ainda são pretendidos tanto na vida quanto na ficção das necessidades e enfim tudo ainda zonzo mas muito percuciente na cabeça uma imagem aquela imagem está finalmente chegando de viagem a mala azul, grande, repimpada de tessituras e ranhuras da semana, a vitrola Omniplay ligada. Stars fading far. Não, o mundo não está esquecido. [Te vejo e te lembro. Vem como poesia. En une image poétique l'âme dit sa présence. La rêverie de te connaître.] Ainda tem olhar. Que vara vasculha. E é madrugada.
O silêncio. A madrugada entrando. A lua brilha como se por dentro. Rescue rescue me, rescue us. Ah… sim… tenderness without fear. Não é possível, é possível? Será sem fim? O silêncio. As palavras. Dreams hopes and promises fragments out of time. Sheer stuff of dreams, veja bem, ponha des(a)tino. (N)a miséria atarantada dos dias. A cor de ameixa dos livros. Os quadros vistos recentemente através da tela do computador. Cheiro de amor no quarto. O teclado do notebook pensa que entende das rêveries sem limite, sem cessar. Pensa que sabe dizer “Meu bem, eu te amo”. Ou pensa que acredita na possibilidade de escrever a alguém pra explicar que “Não, juro que eu nunca imaginei, amor... Prometo que eu te esqueço. Um dia. Nem vai demorar muito. 'Quem gostou de mim... me deixou assim... sem dó... na dor... sem fim... se foi.' Mind you. Pois: não é pra ser... tal-qual mesmo? Olha que vantagem, não é? E será, e seremos, restaremos: desespaço. Então, será possível pensar e entrever mais e amar pra desamar e não se importar, só tendo e vontadeando ter pra olvidar, (as)sim, eu digo, de jeito muito moderno, até mesmo pós-contemporâneo, há de ser, você não acha? Ah, meu bem, não fica assim, não”. Wake up, angel, the snow. Which covers the earth. E quebra na noite. Sem voz. Só sibilante. De tão inarráveis invisibilidades. That lie. Frozen p(l)ayers...lie. É uma pena. Mas enfins... É som.
(D)o silêncio. Dentro e fora do quarto. Às três da manhã. A única coisa que tem lugar.  

Thursday, March 26, 2015

the perfect day



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“Late Night” by Syd Barrett


A sunset forthcoming. Interposed between reveries and announced traffic signs. Curves, asteroids, diamonds, reminiscences. Sulphur times reclaiming. The sun. The sun is. Jumping down. Purples and emotions. In full bloom. Chucked out. Of the frame. Of his real purposes, fuck. Of the ongoing weeks. With much, very much. Intensity. His fragilit(ies). Vulnerable. Desires. Until a moon could say. “Hey. Just look. It sucks. Lick the asphalt. Off your fingers. And…never mind.” Everyday explosions on the streets. Houses and headaches. He keeps wondering. And trudges on. Enticed. “Oh. The town looks different. It’s lightened. With the need. For the sun…shine.” He loves the sun. He loves the purples. He loves you. There’s unfortunately. Imagination overmuch. He knows. He sees. And syntaxes. Unfilled with chains. Ads intertwined. The fear of the chill. Unfastened from stepping into. Halls of hope. Shared Sun…days. Warmly. Dearly. The myriad dreams, promises, poetry in the moonligh. Each single corner he traverses. Is like…a petal-pulling impertinence. The traffic signs of the day. They weren’t that eventful. That’s fine. Things and their images. Things casting no shadow. Okay. But what has existed. Or won’t exist. As a coin-faced destiny. Swallows him up. Today. The night peeking out. Impressively. As he just wanted. To be quiet. At home. In bed. Giggling at his nothingness, no matter. But imagining. Who cares, he does. Traversing skies, not traffic signs interposed. Or such. Imagining. Just imagining. Like…dreaming? No, like imagining. Which’s like…living. Even the greediest fantasies. Or the gloomiest tic-tac ads. Needle-piercing like anyone’s day is, no matter. Imagining. Living. Touching. Fucking. He would be joyfully. Looking forward to. While the sun went down


Tuesday, February 10, 2015

... um presente Josué, frequentando, azul...



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Chegarei em casa ontem, e olha que levo de amanhã três intensidades “bem descabidas” — ia dizendo, como se só se rindo, em largo, um dos meus dedos desobrigadíssimo de pôr nas coisas e nas pessoas sentido de relógio. O que às vezes é possível...
Penso sempre que os sonhadores de palavras existem. E então eles são sonhadores de sonhos. Até da gente, de tudos — não seriam? Josué. Ah, la-la-la... Lembrei de acordar daqui a sete dias tão... sem fim. Assim. Em desvario tropeço êxtase sonilho que não é de todo ligeiro, mas até algum ponto allegro, ou pianissimo. Graças de Josué. Do nosso, Maryllu, Josué.
E foi que nesta segunda-feira cheirando à caricatura mas também à madrugada dos dias que... que. Uma danação! De alegria. Voltarei de ontem, abro o primeiro dos meus e-mails, vem nele aviso do blogue dela de que o Josué é aqui. De novo. Pra eternidades, podemos? No imediato, vontadeei.
O chorozinho desses de abraçar o mundo — mesmo tal mundo-mundo, estranho-mundo que a gente não consegue nem abraçar — veio de jeito. Está sendo bonito. Matutei no menino [gente mulher bicho passarinho ventania] madrugada afora. Tinha não como, e tinha?
Até agora me digo de matutar ainda: viria de quem, de onde, em quais ou quantos por-sendo esse... esse enternecer azul? E ver azul, sendo que estando vivendo saltitando ou talvez tão mesmo soprando-se e estranhando, desaparecendo?
O Josué da Maryllu, essa querida linda deliciosa que escreve de pôr giro na gente e também ela, que nem só mesmo ela!, renovando a gente com borboletas, ah, eu nem sei de um ser possível dizer. É que me pegou emoção de árvore hoje! Agraciada. Estou. Em toque das coisas, uma muita convicção: a de ir ali sempre, em graça dela, do Josué dela, que no fim vira uma mais que graça da gente na gente. Esta lindeza de texto, meu tum-tum: https://maryllu.wordpress.com/2015/02/09/gracas-de-josue.

Sunday, February 8, 2015

morning love



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Tapis Volant by Claude Verlinde | The Shade of the Mango Tree by Luiz Bonfá



Sundays after loveflying are to flap without wings:
a gift for flare, you wonder, and it regains you all of a sudden
by touching the intimacies of what you uninvent and make delirious

the verb “splendor”, for example, you give it abilities of not denominating
tic-tacs, so you fill it with such flimsy, subtle, even quixotic inclination
to be a violet, a violin…dancing and being danced as to moonlight… 

“the reality of love,” someone howls, “ah, to splendor the reality of love...”
omnipresenting it, so that a red a blue a green aroma pervades the bed
can you realize or will you hallelujah it? — oh, such senses of intimacy, sibilant…

your sense, your sense of taste is refined
to the point you’d drop me on your tongue
traveling me, desire-upon-desire, like a river…

so is exquisite your sense of heart-beating
the way you accommodate clouds and volcanoes in your mouth
disproportions and sunrises, bringing me off, replenishing…

even your sense of sight, your sense of hearing,
of word, of silence, of reverie…ah, your sense of touch…
waterfalls between thighs my whole body, eating me up so unconcentrically…

you see? mind you, or simply finger-imagine me,
verbs like “splendor”, so to speak, they wilderness and tree plants
copper galaxies, graffiti a thousand alleys, and firefly noons
they cranberry horizons, and they granola each waking-with
that’s how a morning love, like this you offer, this ours,
a morning love that dewdrops daisies, like this Sunday’s — you, too, skin?
that’s how it can be splendored with a sense of intimate eternity


Saturday, January 24, 2015

Josué azul



                                                pra Maryllu, uma querida, essa delícia,
  ah, e(m) só(s), mundo dos outros, mundo da gente, cê também sente?

   
Música: “Bad blue”, do Patrick Vian, álbum (delicioso) Bruits et temps analogues
Imagem, da escultura: L’implorante (1900), da (ela-diva!) Camille Claudel


O menino chegava sem riso. Duas ou cinco da tarde, vez que madrugando-se mas dificilmente com atraso, ele vinha. Em aproximação alheada, em vias até de sumir-se. E de muito que assim, pelas quebranças lá-e-cá em curso de avenida, de um bocado a outro. Ele aparecia. Andando, andando. Carinha dele encardida de criança sem. E quase sempre debaixo de um silêncio-ferro. Josué – nome que “como diziam”. Figurava, pros que olhavam tentando adivinhar as coisas, descabido de qualquer violência. Assim sem vontade, pra se viesse pedir o que fosse. Era ensimesmado, ninguém que entendia.  
Tinha ali sabe-se lá qual idade, no provável de que uns doze e poucos anos. Vivia ali sabe-se lá onde, o que em bastantes desimportava, pensavam. O que as gentes deviam ver sempre: que ele não era solicitador de nada, não dava a entender que precisasse — nem de sapatos, nem dos de ter pra si, tampouco mesmo estava atrás do de comer. Não era de nada disso. E sim, que o menino tinha uma querença, certa ou incerta, pela companhia. Era precisão? Não dessas pessoas que dizem “nossa, como está crescidinho, toma esse agasalho de presente, ó”. Que não, não parecia sendo assim a premência em-dele. Pai e mãe — ou se se imaginasse ou então eles batiam ponto numa agência de vender passagem por ali em rua aquela, próxima, e o menino, quase sempre tediado de ter que ficar em casa depois da escola até os dois chegarem e então jantarem e então isso e isso, Josué gostava mesmo, e muito, era de se ver acompanhando ambos até a tal agência e, enquanto trabalh(o)avam, de ficar pelos derredores cismando com as luzes lá do alto dos prédios, e com as pessoas atravessando as ruas em reparando os prédios, e pra um quase tudo de movimentado e mesmo enfastiável que ocorria, como ele enfim via, na vida dos passantes da cidade. Que era de interior, pequeníssima.
Usava — ele, sim, e diariamente — uma bermuda esfolada, impossível não imaginar que fosse esfolada vendo diante da gente o Josué, que se diga. Mas não era esfolada do jeito como primeiro se imagina, senão escorchada e batida de coisa outra: quedas inúmeras que ele tinha levado da morte. É, da morte. Mas pode isso, pessoa levar queda de morte? — era o que, num de início, se pensava encafifando... Não só podia como era.
E todos os que conheciam já o Josué por ali-pois — que sabiam um pouco de tudo da história dele: o menino tinha, no de fato, desânimo grande pra quando hora de comer, e isso vinha acontecendo fazia uns meses, e então eis o que também vinha enfraquecendo ele muito, obrigando mãe e pai levarem quase semanalmente em médico, como ele contava pra gente. Que até reza lhe tinham encomendado, mas nadinha — o menino não comia. Da morte, decerto que ele escapasse em todos eles, os tais tombos, fosse acaso ou por sina — não se sabia, como é que podia?
Josué pulava então pedras, a gente hipotetizava. Não comesse tanto assim e... o que seria? De modo que, não surpreendentemente, ele também dava ensejo de pensamento outro, na esteira do primeiro: ficava ele em jogo de amarelinha de trás pra frente, mas pretendia com isso era o quê, o menino? Ninguém atrevia. Era ele estranhíssimo, cogitava-se. Temelequia-se.
A camiseta que usava, até com certa elegantice de não ter sido simplesmente ganhada com uso já de outrem, e até parecendo um bocado maior que o destino de garoto tristonhinho em seus muros adiante ou aquém dele mesmo, a camisetinha dele era azul. De uma feição até algo machucada, que era pra gente pôr sentido que talvez estivesse judiando do corpinho amiudado — como era o dele. E com aquele olhar de menino à espera — isso em muitos. Não de nada, era de se supor, talvez que de mais um dia em que atravessaria a rua e fosse ter com alguém, como eu mesma ali, olhando pro vazio do asfalto e pra escassez das pessoas se lançando aos pedaços por ruas, viadutos, avenidas.
O dia naquele quadrado — sala onde me trabalhavam à época — tinha sido normalíssimo: o seu Valdomiro chegando depois de todo mundo, arrumando a mesa dele, pedindo à Catarina pra mandar vir café com bolachinhas, não esquecendo o telefonema matinal pra sua senhora dizendo que isso ou aquilo — “bom dia”. Depois-que, o Matias era quem chegava até a sala do seu Valdomiro e começava a tomar nota das reuniões do dia, de que fosse preciso isso e outros tantos — eles conversavam, a gente punha só curiosidade, e então consentia. Nada muito além era assim — tão percebido, tão... Quase sempre a mesma quase — rotina. Papéis por conferir. Documentos a organizar. Assinaturas recolhidas sem muito às pressas. À exceção de alguns dias, quando ali as coisas mais ferviam.
A própria localização do Escritório de Contabilidade Alves e Freitas facilitava o despercebimento nosso pras estranhices no próprio centro da cidade — ali era lugar algo escuso até se fôssemos pensar que um edifício tão chamativo — quanto modernoso — embaraçava a nossa vista quando era vontade ou preciso olhar através da janela, pra lado de fora, algum. Também todo centro de cidade parece mesmo um do mesmo, ainda que em tantos contornos peculiares que — e a gente não se importava, como se sabe, e só se ia.
Era por volta de uma da tarde quando foi, enfim, autorizado o nosso desjejum naquele dia. E a gente até que adorava quando mais cedo um pouquinho assim — quem não? Que houvesse, então, a certa boa disponibilidade de só descer os cinquenta e dois degraus e dar na movimentada Avenida Bandeirante, que era onde lembro ainda ficarem os lugares onde a gente quase toda ia comer por comprimido — mas ainda se comia, e ainda bem que.
 Foi quando eu alcancei a rua já pensando no porquê daquilo: que pela primeira vez o Josué — menino se atreveio a mim, ele que tão calado... E tinha sido como se... num súbito que ele foi — se chegando:
— Por que é que você pintou a unha de azul?
Eu esperava nunca que uma pergunta assim.
E sequer sabia por que tinha as unhas então de azulzando.
De maneira que a resposta... ela eu não sabia nem dar. Porque talvez fosse um jeito de olhar pras coisas e pensar cor. Azul. Ou então era vontade de lembrar. Azul. Porque, ainda, possivelmente fosse um azul pra atravessar rua, com menos ou mais coerência. E com todo aquele tempo, que a gente não tinha... minhanossa, que danação!
O azul das unhas, se por verdade, ou quando pouco, me livrava pelo menos de ter naquele dia de acordar indispostada da vida — pensei. Ou de precisar deslacrar, agastada, a janela pro dia vindo. Ainda ou praquele comer as frutas de manhã e tomando o café forte — amargoso de sempre, indisponível pra pensar no de ter, vontadear, comer... E lembrei, naquele momento, que o Josué também não comia. E também fui achando que as unhas estavam enfim azuis porque... ora, a cor de alguma coisa tem que vir de dentro. Não era assim? Quase que recobrando... minhanossa!
Pois fosse. Porque eu estaria implacável se precisasse ir ter com os devaneios bem ali, naquela hora. De trabalhar e esquecer e apenas sentir sem estranhamentos. Mas que pergunta era aquela — o porquê de unhas azuis? isso é lá-coisa quê? Parecia, no contrário de tudo aquilo que eu tinha conjeturado desde então, que eu tinha era acordado algo hesitando... o mundo. Em visitação inesperada, mas sempre de cabeceira, a uma ainda incerta condição de verdade dos dias todos. Mesmo eu, desossando dali — pracolá pujança que corria veia adentro. Intransponível. Cara de asfalto que faz rasgo em gente. Mas talvez fosse isso, a razão pras tais unhas azuis do dia. Uma desrazão. E era.
Que porque, embora aturdido, parecia viável o silêncio de ficar ziguezagueando entre portas sendo lacradas bem diante de uma — muita incompreensão sentenciada de há muito e outras apontando pra outras, e outras. Mas o Josué precisava ali era de uma resposta, eu daria?
Em segundos nada quadriculados, antes de respostar enfim ao menino eu acabava por lembrar de uma outra história que de algum jeito tinha vindo como fresta. Um desvio. Não era de propósito de jeito nenhum que eu tivesse pensado aquilo. Só que foram — se amontoando na cabeça camadas depois de camadas de coisas ouvidas ou lidas ou então — só lembradas... Fui pensando que fosse talvez por conta tão só do que a gente pressente como... impreterível. Não era isso, ou era? Mas a resposta, no despropósito de não saber como o quê:
— Acho que pintei as unhas de azul pra combinar com a cor dos seus dedos, Josué. E mesmo sem adivinhar que eu te conversaria hoje, depois de tanto tempo te vendo por aqui...
— Você está vendo meus dedos de azul, é?
— Vejo. Não estão?
— Pois eu não enxergo eles assim, de jeito nenhum possível.
E nem eu via azul nenhum nos dedos dele, imagina...
— Pra mim — continuava o menino — eles são da cor igualzinha a tudo o que olho; e olha que parece que o meu olho é sem cor, porque eu vejo tudo de rabisco.
Ele desandava, se parecendo açuladíssimo.
— Mas então, eu tento olhar com muita força, mas muita mesmo, e pode ser de dia ou de noite que eu consigo ver bem longe, parecendo que as coisas é que olham pra mim de volta e que também posso desenxergar um tanto de coisa se eu quiser.
— O tanto de tudo que quiser?
— Às vezes é estranho, sabe? Minha mãe ia dizer que eu sou esquisito assim é porque eu não gosto de comer, que por isso as pessoas ficam até um pouco doidas, de desjuízo, quando não comem. Vendo coisa... Pode até ser, mas, no fim das contas, eu penso que não é, nada...
— Mas e os dedos, Josué? Por que você não vê eles azuis? — eu provocava.
— Ah, não, não mesmo, não vejo de cor azul. Eu acho, por exemplo, que eles, os meus dedos, é que... não sei... Vai ver que é por conta do que eu não vejo direito, só se...
— E de que cor eles são, como é que você vê, os seus dedos?
— Vejo com cor de dedo, ora...
— Ah, eu sei — foi só o que eu consegui dizer por último, quase não mais.
“Cor de dedo.” De dedo. Só podia...
Enxerguei, decerto, que os dedinhos dele estavam azuis. Mas, fosse ver mais profundo, tudo no menino era furta...cor. Os cabelos, alaranjados. Dentes, em verde...limão, eu juro. Ombros, vermelhos. Braço direito, marrom; esquerdo, cor-de-rosa. Os pés a gente não via, mas no pressentimento seriam de um azul clarinho, feito céu. Orelhas, brancas. Nariz e língua, em tom único — de hortelã. Mais isso e aquilo outro. 
Depois de uns dias, fiquei sabendo que o Josué tinha ido embora dali, de vez.
E enfins, justamente se a gente pensasse mais bastante numa então vontade pouca do menino e no olho dele azul, que ele não via azul nada, cor nada, mas via só vendo, era isso? Era, de certo, sim, o que a gente mais estranhava — e adorava — nele...

Saturday, January 17, 2015

flying nightingales



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Song: I’m hiding my nightingale by Can & Margareta Juvan
Painting: Landscape from a Dream by Paul Nash


Sixteen years ago, a field of blues, mountain and hills by the horizon. Green-ribbon-in-the-hair people zigzagged through the streets — for any reason, I’d come to see them as if they were flying horses…in the moonlight. First or last Tuesday of February, still summer.
Never-ending misanthrope cars filling the avenues with sweat, stain, a cold smoke. The red asphalt. People, objects, signs. A flame. Literature…sketching the ground like crystals of time on paper, in life. Inalienable, at that point, to any need for reaching-a-climax as I hastened to University. My first year, very first month. Magical. All of those topographies. Violets and violins…ao luar.
That day, in special, I didn’t come on time. Twenty minutes late I hit the classroom, discreetly. The whole environment seemed to step into me. Professor Jo was there — resplendent, as per usual; voracious, ebullient.
I took a seat. About forty of us. There. A strange, variegated togetherness to behold. Some could glimpse the eloquence of those phrases, thoughts, ideas — so hers. Most simply opted out — also embraced.   
When I could finally engage in her flow of words, voilà: little-night fantasies streams unrelenting desires outbursts thoughts wild-sculptures flowering thirsty waterfalls of…sigh!
“Beyond, literature is beyond,” responded she to one of us. “Pervades everything, it’s everywhere. As to permit both angels and demons of experience, and their missing clouds, to be transformed into texture. Yes, texture. Inviting you in. To touch, hum-and-sway, moan, swirl, yearn. For the most unimaginable reveries. Can you feel it? This dream within a dream within a dream? Listen to the dissonance…towns of words being echoed or fading out. If you close your eyes, can’t you envision Penelope as she weaves a shroud to be dissolved into patchworks of…windmills, words, music, movement? You wouldn’t put poetry in a box as if it weren’t also rhythm, also color, and texture. You wouldn’t penetrate as deafly as deeply its realm unless you were willing to transcend the prefatory layer of limitations and routines. Not only to intellectually ‘understand’ it but to touch poetry, to touch literature you must fling open the curtains of your senses to let in not a single but every gasp of art.”
What is it? Nudging people towards… She’s offering light.
[Words gifts wonders reveries. Shells of expressions. Once they exist — the dreamers of words — we long for being with them. Tacitly desperately intensely. But not exactly in a rush.]  
I often went to talk with her. After class, during, before, in imagination, here and there on the phone, drinking lines upon cups of coffee, all immersed in time. “In contrast to a dream a reverie cannot be recounted,” borrowing she from Bachelard and we both smiled. Yes, it must be written, with emotion and taste. Those myriad discoveries, incandescence(s) — relished, coursing, missed. “Each form, every gasp of art.” Utter bemused slogs through aspirations, inspirations, searching perhaps for a trace of what was once promised. Essential natures for coexisting, a mere window, one wonders. Still a one, there it was.
Anyways. Interesting is the image imagined by the looking glass. The zigzag motion, the breath of a river-discourse in its organic flow(ing). “To what end is art?” asked me last dawn, as I slept, one of my dearest (birdie-)students. Felipe, an artist himself. In front of me, right away, a constellation of thoughts: revisiting Emerson and Thoreau; wondering of how bees can be so perfect at honeying; ah, this Violette, her écriture, her beau…voir; bringing back into heart a desire of holding hands with the ocean, and then I am, here, musing over a key Word and how inescapably intense it has been to feel it for. Dreaming in the most pleasant of ways, skin on skinsoul to soul, [like] a free nightingale. How is it possible?
Here things are. Again. [Like] a river, the Nowness. Basking, myself, in a mélange of reminiscences and a drop of honeyit hovers above my own being. Words whispered from distant lands, close to the eye of my mind. A dream a dream, a reverie. And then, various paintings strewn about. Colors of a dance a taste an open-air imagery, a market made of…fruits?
As I leap forward, the hot bedroom looks at me; it grins. The [unsent] letters written over decades, the simplest of [uncommunicated] emotions. Memoirs to be drawn, bonsoirs unworded, unsaid — all of this reclaims something I cannot discern, for it is…such an in-bed exhilaration, I wonder?
To my right, the pillow still dreams of a poem read right before a dulcet one-upon-a-time sleep, that perfect intonation. An enigma, pure evanescence. To my left, this domain of painting with music as a world of perception is to reveal the first commitment of a soul, (with)in intensity grandeur bewilderment, pervading replenishing lighting up. Every gasp oflife.
The alarm clock beeps again. And again. And again. Everything at issue. Pages of inadequacy, allotments of it. [Estrangement, silence.] Diaphanous [wonder]lands, life itself, literature, this flame, alas!, my classes, frantic streets in the morning, what's time, what's more… Time. To re-present, take a shower, and just shoulder anew some fleeting bonjours

Sunday, December 7, 2014

sibilant_cities_crosspieced



Song “One More Night” | Can, live in Paris (1973) 
Painting "Cookery Hall" (1987) by Leonora Carrington

Seven days perhaps She’s been wandering through constellations of scents. The whole city feels apparently lighted with the heat…of a grey sun…and empty. “Overcrowded minds”, One grins unabashedly on the bus, at a faceless window with its blowing-bubbles-in-the-air. There’s a corner up to the pattern of being…shattered. Yes, there is, can’t you see? Look! Or those only are eyes to grow in-between, so desirous of…, who wonders. Any shoes barely feel tired out here late at night, One inquires; “For they feel almost nothing.” A pigeon comes to get a few crumbs of anything over there as a Lily-Person hastens to fling herself at the red-blue-orange alley, that alley, the alley of her own fabric-color miscellany, what a flower(ed) reverberation! as if She’s…stroking. A texture, her language, what's less what's more, any (of her) destin(ies). Holding up the air. The air. At four past two, or twelve-twenty-twisting, no rain, much of a frenzied passage, underrated lenses every(else)where or just a mélange of purple, greens, clouds bringing about a reconciliation between couples right over there. How to learn how to do better? Inadvertently, the camera, enriching, that infrequent window depicted with such vibrancy; there stares up a lady in her yellows as Someone may gloat over her exhaustion. May it be. Scenes and imaginations come together, and embrace the eyes. The city, its circles, its cracks and deviations. Inviting-them. Many steps into many houses. Of mirrors. How to feel how to come closer? Tic-tac, coffee-tic, bread-tac, tic-tic, tic-tac. Ancient books would have missed the train whether came to clarify none-whatsoever’s. A slot through which an Other can be seen dancing naked, (pel)lucidly unembarrassed, how strange, how delusional, how radiant. A pair of red-cord shoes, cast-off, on the streets. Different (mentalit)ies, traffic lights, there She urges desire to do away with that crosswalk. Breakfast at eight, or seven, or nine. Doesn't matter, the most innate winds indwell. Very poetically. Fluidly. Flavors of a twilight of a love-making gorgeous stream. Up and down. And that room, as cloistered as vast, that room being so quixotically, vividly...delicious. The uniqueness of a taste. Oh, over there, right away: there are women having dinner or just trying to know other women from behind cold walls. Scenes of such contemporary coffee-bread, coffee-bread, the sad and a shame; there They pulse, They walk, They are. Inherent, strange, many Ones, many things, She resists, She surrenders, who really cares? Life. Being lived. The magic alleys with their extraordinary screams for life, the streets. Tantalizing, it is, to walk down those never-ending streets. Where a peasant plays clarinet and debussies his Clair de Lune. Very naturally. Or very painfully. Persons, signs, objects. That hat on a misfit's lap. A collection of asters and disasters over there, the streets, the alleys, galleries to look inside, wish upon, step into, gravitate towards, wish upon, wish. So many wishes. Such accumulation of stairs, coherences, dissonances, tints. Possibilities. As to once and for all unwind the pianist’s temperament and make him fly some horses. Really. And not by choice, nor at least, the whole city ends up feeling admirably...engaged. She stops by. Someone observes, as if taking part in, even wondering of. Also for her. Imagination often comes to those little boxes of evading herself, the culling-beans, the tossing-out-frivolities, the echoing-cliffs or tongues or yellows or lefts, and there she dances, cries, whispers, stumbles, what's more what's less, who takes the risk, elsewhere in the asphalt, that cold asphalt with having-no-luxury-of, "here on those or these" streets, who takes the risk? She does, She's in, (entanglement?) pure bliss. Someone comes to squall, or it’s merely the clumsy-like windmills unbuilding scenarios of resentment. Two blocks ahead, Mrs. A dampens Mrs. D’s enthusiasm, “No, don't be silly, it's simply impossible to spice this up, no, you can't, don’t you dare...” Cars, at that time, pitch in with circles of nonsensical theories and become misanthrope themselves, a cycle, a vicious. But then, and finally, and sigh... All these worlds, all of them. Complex sounds, polysemies…at (variance)s in a sense with traces dreamed in moments of fright and resplendenc(y). How intense, how delicious. All those worlds, ah...seven, eight, perpetual days and all these worlds, her worlds...within this avid coliseum of words. Of words. Her words. Her battalions of words sketching the infinite variation of embracing(s) to be shared, nurtured, relished. Exciting, enriching, her words, her castles of words, stories, passions, memoirs. Perspectives, dances, jumping-for-joy, on the streets, freely, inadvertently, no syncopated rhythm, Something so lovely, hers, so intimate, so beautiful. Intense, delicious-delicious, inspiring. Amid infinite possibilities to un-be, again another looking-glass to embark on. As She remains inadequate, adrift, for dear life, but what, who has the key? Incandescent honeyed smells. Sibyls. That inadequacy, impression-itself, is not hurtful, only beautifully strange. Brings dreams, hopes, and promises. Brings polysemies, art, wishes. Sibilant in here-and-there surfaces, instinctively in her manners of seeing the strange side of such a rolling-gait, focused, in a hurry, stumbling around, swirling, humming-and-swaying, getting lost, asking for clues, hints, for how to walk better those familiar avenues with admirable tranquility, She's now holding hands with the sibilant city, with her Dear-Honey-Lily, as in love as She gleams as She goes and She waterfalls in Dreams Once again. A handful of nothingness may be everywhere on the streets, that's how it goes, bien sûr, and there's no reason to feel un-okay with this. Every single where, as People keep playing cards, dice loaded, lov(ing) being for them not on the toc-toc-toc agenda, or what, anyways, anyways... For her, however, within her...embedded within her, Love equals but these castles of discoveries to be...unbuild. The very Experience. How to have it more delicious? Of wonderment, ah-the-Dream, of dancing and dreaming with, for her gratitude, immense, immense, such a Sibilant, this such a Thing has definitely a taste for her, even that, even this, there's on the air such...sibilant-city-being-crosspieced here, can't you see, with that seven-days-perhaps-She’s-been-wandering-through-constellations-of-scents, those scents, inexplicably pervasive, alate, elysian galloping-wor(l)ds of an exceptionally rare Honeybee...   

Saturday, December 6, 2014

O Equador das Coisas #4

jornal de literatura e arte


Em giros, um ano depois, e revigorados! Estamos novamente Equadores, aqui-neste número 4 que temos mais-que-honra de trazer aos que nos leem. E (se) (re)confabulam. Gostam de se embrenhar em páginas, palavras, folhas líquidas. Que vêm e vão, se evaporam, ziguezagueiam, mas permanecem — dentro. De muito que também — e que coisa!, isso do vigor/revigor, era o que eu dizia — parece mesmo é que tudo na gente “tem telescópios”, já poetava João Cabral de Melo Neto. Telescópios. Que espiam a rua, espiando a alma e até longe de nós uns mil metros. Te-les-có-pios. Dizendo do (re)vigor o que na gente pulsa tão intenso quando se vão tecendo manhãs de literatura e arte, em flor, aéreas, à deriva, indo livres de armação, em suas tênues teias — o mais importante. Que é pra desdobrar a gente, bem no sentido deleuziano de dobra, de umas tantas... querências. E de acreditamentos impreteríveis: que gentes... existam sempre as-que sonharão numa praia, sem saberem datas, fazendo seus aviões de ideias, suas horas de mistério... Mesmo suas janelas de dor.
Ah...! Com a tarefa — deliciosa — de vir cá editorialista-hoje, dou à estampa... que a gente retorna, neste 4º número, de vez pra sempre(s), e que agora nos vamos pensando semestrais, e que por conta dessa bem-boa reinauguração equadora tivemos a alegria de conversar com o escritor José Eduardo Agualusa, e que... minhanossa!, também foi sendo tanto (inter)(con)texto dessa vez, e de novo, que... enfins... o tal revigor vem é pra infinitar a gente de muitas bonitezas.
Nossas cinco editoras-convidadas participam com fatia imensa desse revigor gostoso, em toda a sua temperança. Eabha Rose, da Irlanda, abre pra nós este Equador muito brilhantemente com o seu belo conto, alquimista-da-palavra — ela. Iara Fernandes, nossa condessa-lis, é quem nos oferta um punhado bom de prosa com o escritor Agualusa. Isabela Escher, do Rio de Janeiro, nos poetiza em variadas tessituras daqui em diante, e pra já! Toni McConaghie, que apresento no “Brincando de fazer um quê”, é generosa-cá ao nos cachoeirar com incrível universo artístico de cores, traços, frestas e desvios. E a querida-bela Tatiana Carlotti vem de Sampa, e de novo em sempres, nos dizer da palavra, da escrita. Também ele, o grande idealizador-tudo deste bonito projeto-equador, Germano Xavier, nos convida (-adentro) (em) Beckett’s. E a poeta Karime Limon, eternamente poética, nos apresenta mais um de seus poéticos autores a serem apreciados e...e...e: Little Eagle McGowan.
Sara Rauch, Maita Assy, Marília Kosby e Carol Caetano são as encantáveis escritoras-poetas cujos versos e sons e texturas vêm pra sonhar a gente de literatura esplendor. Escrevem, ainda, cá-conosco Zé Alfredo, Paulo Cecílio, Rafael Kesler, James Wilker e Leonardo Valenti — êta-trato delicado com a palavra que dá mesmo gosto-além!
Vocês aqui conosco — com revigor, é assim que eu digo, em respiração apaixonada e agradecida! Nesta e até a próxima!