Sunday, April 13, 2014

gentes historicamente-dor, brasis em seus sem

o discurso de Luiz Ruffato na Alemanha



Eu não tinha ainda lido. E, ainda que vontadeando às largas ler o quanto antes, só fui ter com o discurso-este — que abriu a Feira do Livro de Frankfurt, em outubro último — por agora. Eis os tudos: a gente chora, em tantos, por dentro e com todos os cantos, mesmo os invisíveis de boca nossa, quando lê o que foi dito-lá pelo escritor Luiz Ruffato. É que dá entristecimento por as coisas serem aqui-assim — em justamentes. Há todo um engasgar-por-certo porque a gente então sente lá-fundo que é mesmo assim... como se a história fizesse pra mais de 500 anos de judiarias sem fim com os daqui.
É claro que o discurso dito "prevalecente" fica sendo outro país-mundo afora, a gente logo sente — já que cheio daquelas simplificações baratas de happy life segundo as patifarias infinitas que dão muito nos nervos da gente! Ou sendo: pras tais "antas poderosas", em primeiríssimo plano. Também, e em larguíssima abrangência, discurso outro praqueles covardes — do tipo: não leio nada, nunca li nada, nunca vou mesmo ler nada; à parte isso, sigo vomitando, com muita autoridade, todas as inverdades e barbaridades do mundo — que nem-sei-como-têm-coragem de apregoar isso que é papagaiado pela midiazinha marrom. Aff! E, infelizmente, ainda fica sendo outro o discurso que é metido goela abaixo daqueles que residuam seus tudos em sem fins de nadas — por necessidade, pusilanimidade, exaustão, cumplicidade-míope e/ou tão só dormência-dor.
O que continua dando mais nos nervos é uma tal classezinha disposta a "entendedora", que vem pelos corredores — banheiros, cozinhas, bares, restaurantes et al. — se pondo a repetipatatá, como se o sentir da gente fosse literalmente um penico, e dali-de suas posições muito confortáveis em amplas salas de jantar (ou mesmo nas escadarias de uma ilusória "superioridade" acreditada — logo, defendida), que "este Governo, anarquista-socialista-petista [ou qualquer outro -ista cismado ali, de seus carros tão misantropos] é que está acabando com o nosso [opa, de quem mesmo?] país...". Que isso e aquilo outro... Ê necessidade da tão Santa Paciência, minhanossa! Ora-vixi...! Que tem gente repetindo esse ridiculismo todo — tem! A gente escuta, a gente sabe. Dizem, no mais da insensatez, assim: que a culpa da nossa atarantada miséria é "deste atual Governo". Mas aí, pralém da Santa Paciência, eis desejo é de berrar de volta pra eles: Santa Ignorância. Porque, pela primeira vez na história de um país subalterno como o nosso, este que eles etiquetam tão estupidestrategicamente como "um Governo horroroso" é o que, pelo menos, vem tentando — como dá, é claro; como as corporações imbatíveis deixam, devolvendo aos que gotimetram suor e dor nos subempregos "ofertados" as tais migalhas bem-mesmo miudinhas; é também como as quais "elites nacionais" ainda admitem, sem que o "estrondo" sobrepuje o deles "sagrado esquema produtivo"; como é possível fazer pelos maltrapilhos sem ser morto na primeira emboscada; e, ainda, sem morrer de desgosto com a mentirada toda fabricada pelos papagaios midiáticos. Et al. Enfins! E aos bocados, a gente sabe, o discurso-outro-este-da-forjação-braba ainda por cima ressai com aquele infinito quê de alvo errado, é mais-que-óbvio e o que dá até enjoo na gente  já que contra um Governo que pelo menos vem tomando a peito a missão [já pré-imposta pelas tais "antas poderosas et alli" como impossível] de reduzir a atarantada miséria da gente, o que, aliás, ia e vai sempre contrariar elas, as grandes antas e seus sectários, mesmo os da tal classezinha-especializada, a gente também sabe... Não é preciso atravessar oceanos, não; ó o falatório todo aí, no mínimo muito pertinho: basta ligar a teledistorção dos dias todos ou conversar com os ignorantões-da-vez, que por decerto até adoram ser os macaqueadores das patifarias todas. Mas a tristeza enorme dá é de a gente pensar assim: será que tem gente que acredita mesmo nisso ainda, nesse consenso fabricado tão grosseiramente assim? Infelizmente, tem. Aos zilhões. A gente então sonha que isso — a patifaria toda, esta enfim "burrice em diversas cores"  pelo menos fique mais rarefeita...e menos perversa. A cada dia. Sonhemos. Com joelhos menos maquinais. E que se multipliquem as tentativas. 
Por um de enfins: é até estranho quando a gente ousa mandar às favas esse pra-mais-de-meio-milênio de judiaria com a gente... Mas então que seja assim-sempre: pelas vias de um discurso lúcido, sensível, com primor histórico e que, em vez de papagaiar uma conversinha de pandegosos vazios, ponha o dedo justamente nas nossas veias abertas... Isso que tão bonitamente, e com honestidade-além, fez o escritor Luiz Ruffato! Eis o bonito-que-há no Sonho, no renovar o homem usando borboletas. S.a.l.v.e!
[Créditos da imagem: Frankfurt Book Fair (logo) e Lucio Ramírez (foto). Uma nota: o discurso foi disponibilizado na íntegra pelo próprio autor.]  
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Frankfurt, outubro de 2013 | Luiz Ruffato
O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro — é a alteridade que nos confere o sentido de existir —, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas — ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania — moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade —, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios — o semelhante torna-se o inimigo. 
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais — ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia — são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo — amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro — seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual — como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.

Wednesday, December 25, 2013

farewell [or the spiral]


Ripples, 1950 | by Escher 

[Tear-rolled face observer] Crimes of humanity, should I forgive them? posture them? simply abhor them? We all take part in many; hide others upon myriad others. We even find them beautiful; they are published! Gentle crimes… That little boy. Lying on the ground. Dismantled? In laughter, bursting out? Unstable. [Lunatic-him and her, in all her to-no-avails] Seven, maybe a hundred years gone. Plausibly? A little less. Since his last smile? His break-down. [Inborn.] The crashes. And he lashes…out. His motives. The very shot-down. How to argue over them? Such impetus, he gains. Toward. And so against...against...against. What, against what, against whom? Walls upon walls, the shocks. Reminiscences. Attempts. Re-re-re's...inexorable replies. Many roads, in the middle of them. All. And nothing. His pain. Insurmountable, perhaps. And then...[revenge?] Or just...a lack? Myriads and misunderstandings.
Mother Father Sister Acquaintances Friends. [A farewell.] Where? No limits. There are chains. That little boy. His losses. Struggles. Against. [Un]motivated? No land(s). No reasons, with no end. A light. But again, his torments, no voice. A cloistered. [Evasion.] Environment. His death. To life. A re-beginning. Recurrent, spiral. Another dead-end? Impervious, adamant, virulences. Turmoil gates. No one. No place.
Everybody knows but no one—indeed. That little boy had his motives—the Impossibility? Bearing up against demons—of solitude, parsimony, deceit. There's empathy for him. Here. And his pain for having suffered—his particular way to dismiss? And no one, not even himself, being able—to back down. Poor boy. Until he finally decided—to wreak his revenge. Maybe he didn't find himself—any way to accept and understand...and just...wanted to fly and fly away...far-distant away...
Would there be once upon a time a person willing to...? World-world, fiend-world...fraught with brutalit(ies) and coward(ices). World-world, asphalt-world, deprived of so many ineffables. Every(any)where. Ample-follies them. The boy, panicking [or indifferent, who guesses], will be impervious to caress. And he might refuse, not for being evil, but feeling estranged and even him-the-hesitant, he will dispose of the texture, the touch, and the hand. The kissingbirding in-being extended toward him, here for him, will be...what, displaced? A god-damned shame, the gesture, an attitude...of despair. And of pain. His posture, her absence of composure—the motif, a reason?. Perhaps…but there will remain, just listen, not that one-sided scattered skin...but a dampened, even a next-door shared-pain...

Saturday, November 2, 2013

let(ting) go of


Open(ing) the windows once again; it's cold outside, strange...foreign winds; the streets smell unfamiliar, and even the chill appears to be appalling, (over)(be)numb(ed). But that's life after all—in all its pain, grey asphalts, slaver(ies), beaut(ies), unrealit(ies), torrid teeth and lips and routes, misanthrope cars, nausea-possibilities to dwell in or execrate, or even our own splendorous-decayed dreams...one upon another, with their layers and morningsso ours, humans'to be (inter)woven...acrimony, machine-hands, sordid clouds, and wor(l)ds hooked on moonstruck delusions, planted-here, designed-there to...hurt; yes, unfortunately, (t)here remains much rue, rue, rue...torn-down us—yet all of this...is...to be cooked...away...far, far away. Reasonable? possible? (since) when? well-who...will come over to...help? Wondering, swirls, reveries...plans, hopes. To hope, hope, desperately-even hope. A mere stream? Still a one. Open(ing) the windows once again and get(ting) a life...





















("Sunflower"  |  photo by Arslan Ahmedov  |  www.arslanahmedov.blogspot.com)


Saturday, September 14, 2013

O Equador das Coisas #3

jornal de literatura e arte
número 3 | issue 3 | mai 2013



Com alegria, mesmo euforia em bastantes de vez esta, e por todo-um-sempre, redigo aqui o que disse logo-ali, no editorial deste que é um presente pra gente, e não da gente pra, porque o Equador das Coisas 3, sim e sim, abre-se todo em deliciúras pra nós todos... assim. E foi-sendo então que... 
Um dos fascinantes – e famigerados – passos-traçados que nos oferta a literatura de um escritor enorme como Ernesto Sábato é sua linda, deliciosa inquietude-boa – diríamos, enfim, preocu­pação – com a leitura. Do lado de cá e de lá (porque em Sábato há entrelaçares, e não dicotomias de excepcionices tolas), o leitor são mulheres e homens concretos em busca de um-algum senti­do para uma tão atarantada existência, bem sabemos, e também aqueles todos-nós (anti-)heróis do dia a dia – em nossa peque­nez, contida ou esparramada vastidão, celeuma, destreza pouca ou nenhuma para enfrentar o que quer que.
De então que esse leitor, “que lleva las insignias de sus tribula­ciones y amarguras” e tantos-bocados de crueza e alegria, esse leitor transita entre o possível e o indissociável (em)texto(s), diante dos ali (inter)(con)textos, e eis que a ideia de obra aber­ta, retomada por Umberto Eco, transfigura com sensibilidade a perspectiva plural e polissêmica dela, da leitura – esta que nos faz, em inúmeros de nós, rearticular, enternecer, querer, ou pelo menos desorientar-desconjuntando quadriculadinhos quais­quer... Não? Pois-sim, sim...
A leitura tem, por enfins, uma função (onto-)gnosiológica em Sá­bato. O que equivale a cismar, dentre outros muitos interstícios possíveis, que ela é energia a pôr giro-movimento em mãos e olhos decerto maquinais (tempos nossos!), mas que inicialmente mãos e olhos e todo um resto de sentido possível em nós – lem­bremos. Para além de processo semiótico, a leitura é um acu­mulado de ir e vir e não poder ir – sociais. Está entranhada, neste portanto, de formas de pedir, dizer e silenciar, dali pr’acolá – se fazendo e desfazendo e refazendo... através do(s) sentido(s) pos­to(s) à pele... no outro... nela, neles para deles mesmos, em nós.
O Equador das Coisas se inaugura segundo ano redizendo dela, da leitura. Da beleza e da refulgência e dos embates-conflitos também por certo imbricados para todos os cantos possíveis – quando lemos. Os entraves em que se esbarra hoje em vazios “nos (in)corpora(tiva)ndo” como os nossos (infelizmente ainda!), para que o acesso à leitura seja, de fato, enorme e pleonasticamente irrestrito (por que não?), são lamentosos, claro. Há as antas podero­sas, sempre há, que temem os buracos de fechadura se tornando gigantescos moinhos de vento e então convidando para o con­fronto; sem falar nas titicazinhas e nos papagaios que, com os seus faustosos “com o quê”, se fazem isso-que-por-certo-pouquís­simo... tais escritores-artistas. Pelo não e pelo sim, ora-ora... Que a leitura, que a arte, que a literatura-enfim – é o nosso desejo-cá – seja energia-orgânica a construir e desconstruir, ampliar, gerar, titilar, abrindo, sempre abrindo... caminho para tão-tanto mais.
Que mais (pleonásticos) sem-fins de miríades-gentes alcancem a leitura, a literatura, a arte. E se engalfinhem com elas. E se lam­buzem delas, se repimpem. Boa comilança a todos, e sigamos!
(E feliz e bonita e sempre-leitura pra nós, Equadores! Tim-tim!)


Friday, April 26, 2013

in reality? anastrophically? dwells it (with)in



There are, of course, so many gaps that become very easily "lost in translation" when you attempt to give them any sense—in a foreign language. Lines can regain such natural vigor or roundness; the breath of each syllable—after every single word-by-word they, the phonemes, give rise to in the "new translated-into-new-winds" discourse-river—being imbued with a flourish tune or coming to its dramatic point; the lines, and the degree of their ease or disease, as if shaping the rhymes and rhythms and even the variants of the mainstream language, and its fluidity, or authority, or simply speechless behind-the-lines… The cadence, its decadence… It's truly an adventurous slog-hike to translate, and even more to translate poetry, lyrics, poetry. There's much to be "lost in translation," says, for instance, Eva Hoffman. Appreciated and agreed on my part. I even dare to append, "there's a 'myriad of much' to forgo and sacrifice when you translate, especially poetry-lyrics. The rhymes?, a labyrinth in cadence(s)?, impeccable rhythms?, the significance(s)?, what's more?, what for? I apologize in advance for this extremely unpretentious attempt of mine at translating into English that splendid Brazilian poem-lyrics, written in 1954 by Monsueto, a samba-composer from Rio de Janeiro. This version I bring you herein was arranged and produced by the giant Jards Macalé, and recorded in 1972 by Caetano Veloso during his exile in London, England, shortly before his return to Brazil. In sum, if it is somewhat impossible, as you know, to not "sacrifice" this or that, here the rhythm and the percussion cadence for both the lyrics and the musical harmony claimed to be preserved. So they were—I tried to, wish and hope so. Something extraordinary, dazzling, and beautiful—yes, it is, this song! Excellent listening and "fluting-with" and drinking and dancing-with—it…for you all! Tim-tim!





Saturday, April 20, 2013

ah... pra nova casa da gente... é, não é?



Our house is a very, very fine house
With two cats in the yard
Life used to be so hard
Now everything is easy
'Cause of you              
And our la, la, la, la, la...


video
Our house Crosby et al.
Penso, sim. Numa infinidade de flores sendo postas. Que cena! Boniteza pra uma vida (em) toda. Nossa. A nossa. Sem drama, please? Vejo assim. Sempre quis assim. Amar-amando... e precisa(ria) mais? Você sabe. Que não. O vaso, ah... aquele mesmo vaso de balaios sem fim, lembra? Que você, e eu, e nós, the little faces and all of us, e tudos, nós em cinco, five of ours, enfins... Compradas hoje. Que foram. Flores, as flores, tão elas – flores! Pra nós. São horas e mais horas e são e serão – e(m) som. Assim tal. Todas as noites você cantará pra mim. Sim? Eu via a gente sempre desse jeito, né? Realidade pra viver sorrindo. E sonhando. E vontadeando muito, com cada dedinho. Ou todo o resto. Eu te canto, minha joaninha-margarida. My moon-tum, yumtum, my butterfly... E(m) (mim), e eu mesma... Há, há, há. Yes, yes...those battailons of pain I have...armies, continents of pain... Há e há e há. Tantas imensidões de tãos, sabe? Dor, a dor, a dor... da gente, humanos em nós. Mas eis que eu. Tenho você. Tenho, não tenho? Quero, sim. Pra sempre, sim. E nos tenho. Digo assim, tá? Posso? Por favor? É sincero, muito bonito, eu prometo. Come to me now and rest your head for just five minutes, everything is good, such a cozy room. Nossa casa. Nossa. Com dois gatos no quintal. Nhinhinha e Miguilim. E tantos mais que quiserem visitar ou se aconchegar da gente. Não é? Fazendo infinitos cangurus no nosso colo. Ah... Que delícia. Eles. Que delícia a gente. Eu sempre acreditei. Em nós. Sempre quis. Tenho pra mim que nunca deixarei. De amar. Você. Em mim. A gente pra você e pra mim. Prometo? Sim e sim. Cante pra nós, por favor, eu peço, eu quero, e tão lindamente sonho... sim... As suas, as nossas. Músicas de amor. E calorosas. Como era bom... tudo isso era muito bom... Ah, misfit-me, double-meE é. Ainda é. E será, seremos, serão muito assim-tais: as coisas nossas todas, na casa nova da gente. Sim? Our house...our house...our house. Ours.

Saturday, April 13, 2013

pra você, com todo o meu gosto de nós


como na poesia
bem que você podia
pintar na sala
da minha tarde vazia

video
Ausência | Itamar Assumpção


Friday, September 7, 2012

nothing to skin



"Quiet Silence", by Oleg Duryagin



 Cruelty has a human heart,
 And Jealousy a human face;
 Terror the human form divine,
 And Secresy the human dress.

 The human dress is forged iron,
 The human form a fiery forge,
 The human face a furnace sealed,
 The human heart its hungry gorge.
 (William Blake, “A Divine Image”)
  
  


fidgeting with reminiscences of a non-time square of burns and bringing them back into… play? no, today those rhymes I couldn’t put away for… woke me up – seedlessly without  a profound outward gutter to sleep in? dreamed role-transfigurations in the midst of…? through reveries, the slogs may be, they seem so delicate dances swish open, enlarging the abyss of feeling nothing amplifying the skin to touch the precipice of walking away without and (in-)prosing the unbearable side of this insensibility that sets me softly down beside the innocuous visible of the delusional, am I? that’s what gets me lost in the stream and chatter of a non-touch there are little birds crying out to be heard outside they are inviting me to keep up with I slit the window open and just hark back a glass of wine, on that table mixed up with books and photos and invisible lands, it is stuffing imaginations and echoes behind but, once I pour the liquid in to, once I go there ●  there's nothing to skin neither fear, nor boldness there’s no heat, no chill not even a wish ● of crying, of whisper, nothing to laugh off or tear down ● I don’t want to grin or bear up against whatever I only skim over the birds, and the wine, and across everything enticing me to flute with but can’t recognize them in me there's neither hunger, nor a glut of things not even overwhelming steps or pulp delusions nothing to blush to or leave behind, there's nothing to skin have I moved out… away from me? who knows everything, please don't say me the way who knows nothing, I beg you, just remain softly in your hush  don't despair, don't concern I even no longer remember who’s traced me this   


Saturday, July 28, 2012

O Equador das Coisas #2

jornal de literatura e arte
número 2 | issue 2 | mai-jun 2012


« La littérature [ou l’art elle-même] sert à nous éclairer sur le monde en ses multiples états, à nous en révéler les hideurs et les splendeurs, les astres et les désastres, à nous faire comprendre sa logique et ses contradictions, à nous faire sentir sa cruauté et sa tendresse... »
Hubert Nyssen, in Mais à quoi donc sert la littérature?



It can’t be more joyous when you have your life replete with literature and art, their pieces of madness, their flaps of delicacy; tormented lines and pages, even simplest emotions and sounds and such an imagery about to disclose or keep in everlasting secrete all the trash or all the wonder you – and your existent or fictionized Others – may be blown away with in life…
Joyous and marvelous if you are endowed with art both pulsation and vividness coursing through your veins, making you flute with them, and resigned to enriching the myopic-limited vision you have – of the world and of every single gesture or murmur from persons and personas you are barely familiar with… in your… frenzied tick-tack fragments of days…  
For what it’s worth in our very “contemporary times” or just for those who’d rather dress up to take part in this or that “bombastic, spectacular episode”, and whatsoever, literature [art, itself] does serve a purpose, for it has a preponderant role. Not a $-plin-plin “function” as it’s instilled in many atoms of ours, but a role… Art has a sensible undisciplined role… So that it plays the misfit part of that dormant [yet existent] spark inside us over those nights of disgusting exhaustion over whatever that brings us drops by drops of sweat, rather than uniqueness. Art plays the captivating part of that footloose reminiscence we may bring back to heart in dawns of desperation or solitude… or just insanity, one of that sprounting from our so beating discombobulated moments…
So if it’s really possible to say that literature and art serve a purpose, there’s nothing more touching and true than this everything – as exact as beautiful – said once by the fine scholar, Hubert Nyssen, during a magnificent speech at l’Université de Liége, in Belgium: “literature [art itself] serves to enrich our vision about the world, shedding light on its multiple states; it serves to disclose the world's horrors and splendors, its asters and disasters; to make us understand its reasons and contradictions; and to let us sense its crudeness and lightness…”
My so zigzag words today, dear friends and partners in this amazing crime – literature and art – serve a purpose as well… I’m [over-]honored to bring you, even through these misfit words of mine ever, the issue #2 of our O Equador das Coisas, a project for a journal of literature and arts we came up with in the beginning of this year… even in times of too many screens and their much more enticing spectacles…  
When I say I’m extremely honored, I refer to a double preponderant reason: to contribute to spark the interest of others in this vital field – literature and art – which has been enlightening my own twisted life’s forward motion my childhood now; and especially because in this issue we were beautifully blessed by so many sensitive, talented artists who still believe, like ourselves, in the redemptive power of art.
Our most special acknowledgments to Miki Turner, this so talented photographer who generously accepted to enrich the pages of our journal with her pictures and words; to poet Mike Meraz, and his “asphalt pains and verses that dream flowers", brilliantly sellected and introduced by our poet-editor Karime Limon; to the wondrous IARA FERNANDES, and her delicious "tracing-in-zigzag" short story; to the fabulous TATIANA CARLOTTI, and her intriguing, captivating story on such an ordinary woman with her misadventures sprounting from her "crushed" eveyday life; to writer SARA RAUCH, whose words are nothing but that enchanting everything which gravitates around all us making us contemplate the delicious side of a brilliant creative writing; to poet Ricardo Rother, and his incredible post-traumatic strokes and verses; to the amazing CLÁUDIA LEMOS, whose story gave us the gift to step into a very sublime literary encounter, between creators and their creatures, their personas somewhat close and distant from ourselves; to the major fictionist LISA ALVES, whose writing we had the honor to feature once again, for it beats all inside us, and it pulses so beautifully, so rhythmically within; to the brilliant Ana Lúcia Sorrentino, with her terrific “casual lovers, stimulating desperations”; to Uianatan Alecrim, whose first-part short story on the pages of the first issue grew in new contours and climaxes, and had its upshot in this second one; and to all our readers, supporters, appreciators… partners in this wonderful crime of still believing in art and helping us to reverberate it all over…
Tim-tim!