Tuesday, May 19, 2009

a entrada no prédio central I


pés rachados, encardidos
a ladeira, alta; o cimento, ardente
três dias de caminhada
de frente para o portal de entrada inacessível - eis o alvo

nada nas mãos, um objetivo apenas -
peregrinação de desaviso, um revide, talvez -
uma observação principal - a vista de cima, uma entrega, se a entrada...
sem permissão

desemprego, pouca esperança, nada no bolso
necessária a entrada no prédio imponente
de lá, governança, remessa de verbas, assessorias
o não-atendimento ao público - tudo reservado
doze chaves, seguranças à porta, movimentações, transações
decisão para um sem-fim de gentes - a vida em protesto, em protocolos não-lidos
opção pelos mais reluzentes, saídas aos mais otimistas

ali, a decisão ferrenha:
educação - três contos de irrealidade
saúde - dez mil ficções
bolsa-comida - para os que...
moradia - vazio do centro da cidade, correria para os subúrbios, ou ruas imundas, buracos de fechadura

esporte - as sonhadas olimpíadas, a copa, oitenta milhões multiplicados por cem
(ginásios, campos de futebol, poliesportivos e marketing para os garotinhos-atletas-propaganda)

lazer - para depois, primeiro o essencial, mais transações, negociatas
(um parque do sabiá para os pobres coitados, regozijo na piscina esverdescente)

cultura - o principal: patrocínios das carinhas festivas e marqueteiras, colgates sem sorrisos
(filmes globarbarizados, shows de cerveja e cantoria desmusicada
restauração superfaturada de patrimônios sem proveito
livros publicados que...)
uma roda da fortuna - sem ganhadores concretos


a entrada no prédio central II


o prédio, lá, ensolarado, frenesi à porta, entrada dos importantes
a chegada, cansativa
necessária a entrada no edifício
lá, as cadeiras de oitocentos reais cada, mesas projetadas, confortáveis
tapete verde-amarelo, à espera dos importantes
cafezinhos, briochezinhos, comidinha de primeira
intervalos, longos, para as conversas em atraso
negociatas, várias, ao longo do dia

impedimento na entrada: "só os autorizados"
quem? os eleitos pelos serafins peregrinos?
estes, os autorizados? quem?
por que não? mas a entrada... sem chances, retorno?
enfrentamento! necessária a entrada no prédio

num bolso, o atestado - de óbito
mãe dele, de quarentena, sem assistência, por que não?
morte inútil, sem sentido, gota-a-gota
só a entrega do atestado, mais nada
pedido de ajuda aos homens importantes? isso não, sem serventia
titilações no ouvido: lixo, lixando, opinião pública
mudanças daqui para a frente? improvável, quanta mina de ouro!
para trás, todas elas gotejadas, uma a uma, bolso por bolso -
a roda-roda, a inércia dos bem-aventurados!


a entrada no prédio central III


no outro bolso, um comprimido -
cianureto - morte rápida e sem dor
alguém alarmado? não, desnecessário
replay disso quase todos os dias, ali, em qualquer lugar
pessedebistas, pefelistas, pemedebistas... em cujos olhos nada de arrependimento ou compaixão
antes, a riqueza, sem destino certo, sem distribuição
paraísos fiscais, rapacidade a céu aberto, sem cerimônias

momentos antes do comprimido: atentado terrorista? isso mesmo?
rumores, conjeturas
o peregrino na entrada, o atestado no bolso, comprimido quase na mão para
mão quase fora do bolso... o comprimido
um estalo: tiro em legítima defesa
necessária a proteção dos importantes - um deles descia, ali mesmo
do carrão importado - desprotegido, coitado
e a mão quase fora do bolso do peregrino?
suposição mais notória: um revólver, talvez, pronto para o atentado
não! o atestado de óbito, apenas isso

o sangue derramado ali na entrada, também no asfalto
mistura de carências, desconforto, um quê de tentativa, de reação, de última cena -
a caminhada longa, três dias, sol forte, pés inchados, encardidos
agora ali, o corpo inteiro no chão
à espera do fichamento, IML, enterro digno dos indigentes

e o homem importante - respiração aliviada, quase perto da morte, do provável tiro do peregrino
impossível morte tão cedo para o importante -
muitos negócios ainda, a fortuna incompleta, bens aos sucessores -
prolongamento da roda da vida, à brasileira
e muito perto, o homem ali, estirado, ausente
da chance do seu próprio destino

em vão o cianureto
em vão a caminhada
em vão o revide, a tentativa, o ressentimento, a não-compreensão -
este último gesto de desespero e resistência
em vão a entrega do atestado de óbito em memória da mãe
eis agora o seu!