Tuesday, May 31, 2016

poeminha de (não) miragens


tenho essa perplexidade
de me sentir
horas a fio
ou todas-quase
horas dos dias
em constante
sensação de precisar
entender de nada-nem
dizer possessões
armarias, patifarias, ou quais

que o Foucault (se estude e)
também se descuide
porque a gente merece
bem-aventurar

abertura de enternecer, se indignando
e querer até saber mais, demais
dos risos e mitos e ditos
num bricolar
de imiscuir
recrudescendo
tudo
mesmo-tudo

em vontade e desespero
de não ter e só querer
restou bem-só
assim-que-em-bem
restou amar


Sunday, May 15, 2016

shabby-looking bonds

em suas coisas que desviajam


video


    o tempo hoje, desde ontem,
    me acordou sem zelo
    confundindo-se? insensível
    virando a esperança bem ponta-à-cabeça:

    “não dê corda a desejo, coisa vã,
    partituras de viagens — bagatelas! — só te sonham,
    você estranha, estrangeira, mundo de medos, visíveis
    limites, suas-muitas tolices, prioridades? — esqueça(-)se...”

    então foi que acordei hoje fragilíssima, recrudescendo
    uma noite, a de ontem, toda ela incompreensão
    e eu só zelando pelo desejo, era só isso, 
    de pessoinha-assim-de-província, diriam
    desejo bobo, que tenho há tempos:

    só me via indo ver... e tocando... descobrindo...
    proseando... em viagens — como se partituras,
    rua abaixo, rua acima, lua... vontade-nota de estar com —
    “ah, eu me estaria de nova york ou marrakech
    pelo mesmo rodopio — famigeradas, eu faminta

    mas, de repente, ontem, pesou na mala 
    um coração que já viu tanto e, fim das contas, em raso viu

     não revidei, contenda nem foi
     só entristeci

     “como é que alguém desentende a simplicidade
     da gente assim? e desmerece a melhor faísca
     fagulha mais pura.... de encantamento pelo transpassar? 
     mundo, mundo, os nossos tão diferentes mundos... 

    nos despedimos aqui
    sem mais miragens 
    nem devaneios

    tudo okay, vou ao cinema, brasileiro mesmo
    nunca entendi de red carpets, nem-nunca quis, 
    prefiro assim 

    não sinto sentido no sentir
    sem a ranhura do simples 

    tudo certo, não me espere
    não me importo
    fico para trás.


    Imagem: Part Blake, part Tolkien, all England... Landscape of the Vernal Equinox, 1943, Paul Nash
    Música: Cristo redentor, Donald Byrd