Sunday, June 7, 2015

o_estopim_do_amor



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     Ná Ozzetti & André Mehmari, Nosso amor (https://youtu.be/04CZAOdkoxQ)


Pensou então que o silêncio pudesse conter uma palavra que explodisse. Fosse de vez só a arruaça toda. Com o dizer daquilo que apertava na garganta. Se assim seria justo ou injusto, se as pessoas entenderiam, se isso ou aquilo outro, importava? De segunda a segunda, o pensamento era este. Que o silêncio dê agora de pôr os pingos nos Is!
Era necessidade. Muito grande, como se diz. Pois-que se imagine. Tinha conhecido o Amor. Do jeito que lhe contavam na escola, em mesa de botequim, depois no trabalho, em fila de banco, livro, supermercado, nos cantos diabo-a-quatro da vida, o Amor era algo assim... longe, longe. Feito de bastantes coisas — incompatíveis. Ou então perto, perto. Como se fosse tanto de café-com-pão, café-com-pão, e então... dessa forma... que era sem jeito, sem rosto, sem nem descontrolar minuto de relógio... não-queria-porque-não-queria. Quis.
O que vinha sentindo, ah... lá-isso era coisa pra médico nenhum explicar. Amava, abria os olhos de manhãzinha, encontrava travesseiro só seu, ali, ao léu das intenções. Daí-que procurava jeito de não ficar com sensação negativa pelo Amor só por conta de... Estava sabendo amar? Fazia muita falta aquilo de ter-que-ter sentido, forma, rosto, voz nem que fosse de sol rachando, olhar mesmo sendo de chuvisco, ou sustenido. Não precisava deixar mais claro também que amava? Trazer pra mais perto o Amor? Parecia tão longe ainda...
Espremiam-se as carências, tique-taque ia dar na lembrança do que ainda será. Eis que o Amor vinha sendo assim, espreguiçando-se, em tédio? Querença de cá, apenas os tais floreamentos de lá. Os dias redemoinhavam na virtualidade das línguas, era por isso! E as coisas foram caindo na distração típica da vida que se vive sem pulsar. Vizinhança-ali, cheia de quietude, como se sertão. Pequena — a cidade. Tudo feito de papel. Os dias, o trabalho, listas de compra, tonteira que se põe à mesa todos os dias, sendo de silêncio, de barulho; tempo cozinhando, tempo remexido; sim, aqueles momentos de caçar a fumaça dos vazios... a mochila de carregar as coisas de lado a outro, pra lugar nenhum. E aqueles anúncios? de gente vendendo pão de mel, gengibre de acerola, poeira de cimento, ou o quê? Coisa de cidade pequena, até as solas dos sapatos. Ia tudo indo, a vida. Sendo que, do outro lado, do lado do Amor, a cidade também era uma cidadezinha, interiorana por assim falar, com as respectivas distinções de distância, a gente sabe, mas naquela mesma toada de pequenaria com que se vê passarem os assuntos. Que eram tantos... o Amor sugeria. Se verdade ou não, tão só era como escutava o Amor contando, e havia de acabar achando que. Cansava-se de acreditar que era a pessoa mais importante do mundo, que isso, que aquilo. Mas assim, no concreto, muito pouquíssimo, quase um nada. Fala, fala, falação de Amor, adoidadamente. Pessoa mais importante do mundo, imagina! Duvidava, sentia saudade, quando é que... aquela angústia nunca acabaria? Por fim, acreditava. E ficava de esperança, esperando, esperava.
Sentia, no entanto, vontade de ir também pra outro rumo. Até em Lavras, por exemplo, dia desses, provar uns biscoitos de quinoa. Sempre dava isso — de ficar querendo aquilo. Também tinham contado que no Mato Grosso, em Brasília, Salvador, no Pernambuco, floridas... noites de luar, ah... Era um bocado bom de tantas outras localidades. Será que numa estaria mais perto, mais longe, inexistindo ou só sendo — o Amor?
Segundo tomara conhecimento, era ali, num interior do outro lado do mundo, imagine-se, do outro lado do mundo, só podia mesmo, que o Amor prometia. Cheio de gosto que não precisa passar por cima de outro gosto pra existir, relatavam. Cidade pequena também. Porque, como diziam, não se necessita de mais de um palmo de outroras pedindo-se de presentes pras auroras pulularem... Do que mais se precisava, afinal?
De sentir. Atravessar. Pertoamar. Rosto sem rosto, Amor que é Amor tem que ser-sem-conter-se, e sem o tal fingir-lá-rá-laiá, ouvia alguém cantarolando a duas esquinas de casa, foninho no ouvido, distraindo-se. Okay, Amor até existia, mas ainda estava de longe. Porém, precisando, pensou, ah... precisando, bastava que... que... ligasse as matemáticas, não, não, as matemáticas, não, as geográficas fábricas de ver e ter e de conversar e até de pôr gosto e desgosto nas coisas e pessoas, telas teleféricas, não era assim que as relações aconteciam nos tempos de hoje? Mas mesmo que sem... sem serem de tocar? Sim, diziam, era magnífico, moderníssimo, bonitíssimo até, por conta das tais soluções engenhosas. Acreditava, portanto. (Con)sentindo-se.
Passavam as horas, o quarto continuava vazio. Aquela promessa de juntarem as coisas, os pratos, colheres, triunfos, quadros, papéis, canetas de escrever miragens, lápis de colorir, livros em pilhas de livros, cacheados anoiteceres em penumbra de estupor ou esplendor, tudo o menos, tudo o mais, até as judiarias... A luz e os cobertores usados em tempo de chuva. Porque, fosse, era pra dividir até os resvalos, as impertinências, até as ruminações de de-noitinha, não era? Os lapsos, desfeitos, os muitos aconchegos e atrasos. Era pra ser assim. Tem-que-então que a vida segue.
Os dias correm caminho de maratonista. Tinha que ir estudar, ora-essa. Seria. Iria. O sonho de sonhar com as coisas todos os dias não era pra ser deixado na esquina entre a rua dois e a quarenta e nove. De serenos. Eram pra durar, cantarolar. Sonhos. E aquele... de ainda ir pro estrangeiro ver se lá as pessoas também comem caquis? E tantas outras frutas. Ah, adorava frutas. Fosse de habilidade com pintar, também pintava elas todas qualquer dia. Ou de escrever, novelava. E assim por adiante.
Que o silêncio contivesse, no fim das contas, palavras que naquele dia explodissem. E então teria dito que não acreditava nas ladainhas contadas, coloridas, meu bem, tão apenas ao sabor de um fim de semana de amizades. Coloridas? As amizades. De dormir com, bem se imaginava, é claro. Aqueles dias, do Amor em companhia que não a sua, tinham sido bons, é? que bom então, ah, muito legal, que especial... Que nada! Pois-que ficasse com eles, usasse e aproveitasse, e se sumisse. De vez, então. O tal Amor. O que não seria só prudente, mas decente, né? Porque... porque não estava com a mínima disposição pra ficar ouvindo cenas sendo descritas como se depois de noites aos acalentados movimentos de regozijo, com outrem... Tivesse a santapaciência, não? E então ainda vinha dizer, no dia seguinte, dos tim-tins, como se nada tivesse de fato acontecido, que... que... Ah...! Que coisa mais esquisita! Não, não, daquele jeito, não queria Amor, não. Concluía. Tinham-lhe dito, em contrapartida, que bobagem, que era ciúme, maledicência, coisa tola encarar os fatos assim, tão precipitadamente. Fundamento, comprovação mesmo, não tinha. E enfins...
O quarto agora está vazio. É como sempre. Não tem mel na despensa, onde já se viu? nem nunca terá. Sabe-se. Fazer o quê? Deu uma piscadela pra ver se pelo menos compreendia. Tinha sido devaneio, né? Ainda estava tudo lá, tudo do mesmo jeito, tal como está, sem decolar. Bom-que. Tudo certo. A noite. Sem luz. No ar. A tela. Iluminando mais um sem-quê, dos dias. Lembrou, então, que pensava ter encontrado o Amor. Que é isso, meudeusdocéu. Ocorria que, tão só, o Amor inexistisse? Ou tinha só relampeado certo acontecimento de eternidade, mas voltado pra longe? Voltou. Pras mesmas conversas de rua, de botequim, nos silêncios das matérias de jornal, também no ruidoso das páginas dos livros. Só cenas. Era como deveria ser, não era? Uma coisa, entretanto, se pressentia: entrasse naquele avião, fosse pra longe daquele jeito, o Amor não voltaria mais. Nunca mais. Como é que amor que não quer nada ia durar? E então, às dez e trinta e três da noite, num frio corredor de aeroporto, gente pra tudo quanto era lado vindo, indo, partindo... eis que o Amor ainda estava ali, querendo prosa, pedindo retorno, que não tinha sido nada daquilo. Explicando-se. Coisa pra qual nem justificação havia. Desviando-se, dizendo absurdamente de leros, boleros, promessas e tantas conversas que, ora-bolas, de verdade nem eram, nem seriam. Foi-se, enfim, o Amor. Tudo agora, de novo, no seu devido (não) lugar. É como sentiria.
E então acordava-se.