Wednesday, December 23, 2015

simplicitas

majores pennas nido



me cabe um espaço que 
não me ocupa, se encaixa, desentendido até,
todo fresta, em suas obstinações não coisais...

tem dia que um outro espaço bem próximo, solerte —
sonolento para as coisas de fazer tum-tum,
tum-tum — alardeia, faz cena, diz atrevendo-se
que preciso me "compor de outros
corpos, taças, tapeçarias bem excelentes"
e deixa escapar, no entanto, a tão só
necessidade — à sorrelfa — de haver mais um corpo
distinto, inútil, partido
perdido —
assim, para lá, para cá, omisso
como quer fazer deste, aqui, meu — contumaz

(que me cabe todos os dias de um espaço)
de ofícios deslizes relógios foguetes e
patifarias, notícias com seus martírios
e estrelas nonadas lembretes, suas merdas
galopantes e enterradas, ah os meus
braços e pernas e sorrisos e equívocos
feito pêndulos — cheios de vontades
madruguentas pendências (mas minhas!) —
com que tento manter aceso o acaso, contornando
pra longe, o mais que posso, as manadas dos que se dizem
fora de norma, mas tão coisais, pobres coisais...

(eles, que não cabem sequer num espaço)
pois querem, mas no fim das contas só desconseguem
impor maledicência nos inutensílios das coisas
na simplicidade do viver que naturalmente há
na desobediência de falarmos
com (um)a não língua, não língua... mais nossa, também mais minha —
rasgada de anteditos, de não luxos,
sem brilhosidades, sem drogarias, sem — e que hoje
tempera senão no riso que
enternece das coisas 
dos sons das coisas dos pecados e da poeira
das coisas e da esplêndida radiância
que há nas frestas e nos desvios do que ainda respira — todos
aqueles episódios da mais magnífica
contemplação:

a simplicidade
das coisas é o que
põe ninhos de asas
para a gente viver de folha em festa, arvorando
ainda que eternamente
ao rés do chão

(eis o meu espaço-corpo)
com que me sirvo da vida e da vida das coisas,
e vivo
e também mando
irem tomar na verve, mais pura, de-sem elegantices
os ricos de todas aquelas cenas
que ressoam as insuportáveis
sonsices de viverem, afe!, tão fresquinhos
e de solicitudes com sua prataria intocável
em sala de repimpar, e tudo,
e enfim, tão em perfectum
mas sendo o vento deles feito de dias 
no fundo, no fundo
tão-bem bestiais...

(música "Kaira", de Ali Farka Touré & Toumani Diabaté)


No comments: