Thursday, July 16, 2015

mãospoemassem




duas mil noites atravessam os meus dedos
lá fora o mundo precisava inexistir, de espera — o som
de dentro do quarto o martelar de uns gestos — únicos
ainda seca, crua demais, por fim indissolúvel — a colcha vazia
até virem os olhos fechados, o escape, a ternura imaginada, o ímpeto
zooms por baixo das tentativas movimentam-se a uma fresta meredith-monk
de pecados sem lâmpadas, a respiração que se perde, violinos tocando cantatas

o tempo todo
na cabeça
o poema transvira-se

e é quando mantenho a impressão de que
umedecendo-se entre um desvão de serenidade e loucura
todas as palavras passaram por mim
aturdidas, sem sintaxe, galopantes, rapidamente, e mais, ao mais...
ainda, preguiçosas-já, distendidas, e(n)fim

vasculham duas mil estrelas as noites já sem pudor, esvoaçantes, lá
na parede do quarto, tremulando, telas floral fields — os seus
céus azuis, alaranjados, três linguagens se arrepiaram a toque de caixa
e tudo verdeia de novo
devagar

impresso é de certo o gosto de combinar as palavras —
(que) redemoinham por dentro, entram e saem, esticam-se, crescem —
o humano, a carne, no chão, pro céu, que escorre —
em cinco pontas, penetrando, indispondo, e lambendo, e entrecursando

a noite
como rio
de um poema
que se espera
de vorar


[Crosslights (2009-2010), por Joshua Bronaugh  |  Música Prostitute Poem, da banda Gong]


2 comments:

Germano Viana Xavier said...

O poema se buscando.
O humano se.

Carol P. said...

Sim, G, e te digo que é uma sede tanta-tanta-tanta... de.
(Que de) humanidades apaixonadas.
Poemaroamor. Pôr. Em dentro(s).
Impressionantemente assim.

De vorar
cantatas. Tocando...
infinitudes. Como prevejo.
E é incrível. *-*