Sunday, May 8, 2011

o espelho que imagina... a gente

kfldsa
Sempre as tais... dualidades.
The pit and the pendulum. Pralá e pracolá. Os sinos batem – e sino lá bate senão o bang de um fazer estranhezas toc-tum... dentro? Di...na...miiiiiiiiiiiiiii...te... kaboom! Wilsons amontoados pra então desdobrando chapéus e capotes, ali mesmo, à nossa frente, tempo nublado ou aparecendo sem vergonha o sol, pois que na tentativa cabreira, ou cabisbaixa, que seja!, pra um de internação, ou expulsão... que... da gente.

Os então espelhos exalando maledicências e benfazeções. Não seriam... multiplicaduras inclassificáveis da gente e dos Outros-quais-então com... a gente? Que, em caminhos tortos ou camadas uma-depois-a-outra em dias [intransigentes], nós-todos, comprando ou entregando, mãos abertas ou fechadinhas, assim... a gente?
Ela... pessoa comum. Trinta e quase um ano – a idade. Profissão: perigando coisa ou outra. Distração: qualquer uma que não a obrigue a coisas indesejáveis demais. Escolaridade: sempre o embaraço de não saber dizer de si o que nem ela tendo tido, mesmo que em intenção dia desses. Vício: o de então vinha sendo esquecer, por a + b, que tinha com o que ser feliz sem se perder em madrugadas adentro, de frente pra uma frieza em tela, resquício de um desagrado muito marcante de meses antes – que ela cismava... não devia esquecer. Ou devia?
Acordava hoje em disponibilidade pra... quê-querendo, ou desgostando de... um certo propósito-atitude, que portanto talvez cintilante. Vontade de. Descomplicar lançando uma-alguma iluminatura corajosa pra dizer tão-só um desdito que ainda. Mas era preciso. A manhã foi intensamente vazia de afazeres com que nos pretendem insanos, ou dedicados, aos olhos dos... homens e mulheres, distintos ambos, e a gente, não, porque levando o porrete, mesmo que silencioso-pliiiinnn, pelos crimes todos que se cometem em nome... deles mesmos, mas atribuídos sempre... à gente.
Relembrou, de frente pro espelho brilhoso do banheiro de azulejos amarelecidos com o tempo por um vapor baratíssimo escorrendo do chuveiro sempre esfriando, que é pra gastar menos energia elétrica [oh-claro!], ficou então calculando a sua sina do dia: pentear os cabelos e não esquecer o gel superpoderoso que dá lustre ao que de há muito ofuscado pela fumaça das ruas e avenidas com que [os alguéns que a gente não conhece, mas pressente] faziam do seu cotidiano-dela um semblante daquilo que ela só queria, ainda que não tivesse com o que. Depois, ali mesmo saindo do cômodo de aprontamentos higiênicos, em face e corpo ensimesmados de algum contorno, talvez fosse isso mesmo, ela desembaraçou a fita verde que não mais no cabelo, por certo que nunca a tenha tido, pelo menos não se lembrava, e rumou pra cozinha, que é onde se faz o café pra ser engolido muito raramente com algumas bolachinhas compradas em quadradinhos pacotes de manter ali os conservantes todos que os tais alguéns querem muito comidos... pela gente.
O semáforo estava esperando na entrada do prédio. Sempre assim. Ela e ele andam juntos, um olhando pro outro – mas só quando é possível corredeira com dedicação a verificar um pro olho piscante do outro. Quando não, o pisar asfalto pavimentado e esburacado das ruas conta com a sorte. Ou com a má-fortuna de um esbarrão-carro, misantropos quase todos eles mesmos e amassando, se pouco, a pontinha dos sapatos da gente.
Hoje o dia seria o mais importante da vida dela... torta. Estelar – foi como ela aprendendo, no correr dos tiques e taques, a permanecer contando os segundos pro de agora... dia. Não compraria nada. Nem se meteria a bestidões corriqueiras de cumprir o horário certinho de ponto em emprego meio-salário, o único que tinha conseguido pra ir dobrando jornada em vias de acertar mais de prontidão-sentença os tais talões mensais.
Tinha até umas poucas bagatelas pra vender e ir-se arranjando pedacinhos de cobre pra somar e comparecer à casa dos $$$ quitando isso ou outro do mesmo-aquilo... mensal. Mas hoje, naquele extraordinário dia, não era pra vender coisa qualquer que ela saía... às ruas. Nem mesmo pra tomar o sorvete de casquinha, anunciado sempre e fermentadinho de umas leitosas matanças de destinos alheios, explorados até gota última em extração do líquido, ou penúltima [nunca se sabe]. Não. Ela não tomaria o tal sorvete nem cogitaria comer o seu preferido pão-de-quê servido no armazém do seu Nicomedes Alves dos Santos. Tampouco ela, que nunca tinha se metido a comprar à vista mercadoria qualquer-uma, saía então de casa às oito e vinte sete da manhã, um pouco atrasada, pra pesquisar o preço em promoção limpa-estoque.
Faria o que, então? Se não isso nem aquilo, era o quê? Estudar – não estudava mais. Só rasgava os muitos conhecimentos acumulados nos embates do dia a dia-trabalho dela. Quando muito, permanecia bestamente de frente pra tela sem saber sequer o que via... Trabalho ali seu feito bastante em exatidão. Ou quem sabe ela nem enxergasse no embaralhamento de letras com que se consomem vidas às vezes não se dando conta. Não compraria. Não beberia. Comer estava fora de resolução. Também não se encontraria com amigos ou parentada pra dizer como vinha difícil a vida. Nem mesmo pra receber o ordenado era que aquilo-dela tinha decidido na manhã de então sincronizar partida assim tão esperada prum de... fazer o que na rua? E hora daquela mesma se não pra...?
Era um mistério. Isso pois? Ela queria sair às escondidas sem dar notícias do que... faria? Mas se nem pra ninguém mesmo ela tinha pra quem relatar episódio qualquer... Fosse outra coisa – isso é que não... seria.
Não planejava cantar. Sequer passaria na porta do Cine Malvadeza pra ver o cartaz do dia. Ora que nunca também é que procuraria nova terceirização dos suores todos chamados por uns – a mão-de-obra... da gente. Não saía a passeio – luxo que a ela, ah! não cabia. Tampouco faria qualquer coisa que alguém em normal estado de mentalidade, como dizem, conseguiria ali, ou noutro canto qualquer, imaginar.
Faria, portanto, o quê? Uma pessoa comum – ela. Expropriada e corrompida, torta e desencontrada de caminho um qualquer... Como os muitos-quase-todos... perdidos.
Daí que, hora pra outra, desandou a atravessar a rua correndo muito, que era pra poupar... tempo. Talvez. Quase nove da manhã. A cidade a essa altura já buzina inteira na gente. Foi entrando na loja. Que era até um algo... chique. De espelhos – inteirinha, a loja. Escolheu um enorme pra ir rumando em sentido. Ou na contradicência mesma... dele. Esperava ela, e de braços meio abertos, uma moça. Bonita. Quase que o oposto dela – era o que se notava. Ela então, tendo saído de casa pra mais de trinta e três minutos antes, foi-se aproximando... da Outra. Ambas se olharam detidamente. De início, uma algo desconfiada da outra. Mas que, no fim das contas, parecendo uma pra outra.
Sem nenhum movimento abrupto, mas com receio de talvez espantar aquela que ali de braços ainda meio abertos, ela tirou do bolso um papelzinho pardo, que foi onde anotou, durante dias, pra não esquecer uma palavrinha sequer, tudo o que planejou ali dizer... pra Outra.
– Por não ter te escutado quando deveria. Pelas horas infindáveis diante de um vazio, que me afastava da nossa imaginatura-muito-nossa. Por ter tido olhos agigantados pruma tão imensa brutalidade que te direcionei, quando poderia ter vindo aqui simplesmente e te dito “não é isso, é mais mesmo que fiquei perdida por conta de não saber lidar com a estranheza de me ver desarranjada em desconexões contigo”. Por todas as madrugadas em que te expulsei de mim pra me dedicar a um fantasma de mim mesma – ou de você, sabe-se lá. Pelas lágrimas que esqueci de chorar contigo, em solidariedade à tua dor. Por ter-te abandonado naquele momento doído em que perdemos ambas o eixo pela ida de uma nossa intimamente linda. E por todos os dias em que fui leviana acreditando que eu, quimera pura, poderia me desgarrar de imagem esta que eu agora vejo eternamente entranhada em mim, compartilhada contigo, vida inteira como tínhamos planejado... Daí que eu me curvo diante dos todos crimes de mim pra mim, estendidos e talvez um dia compreendidos por você... Não fiz por maldade simples, mas por ter perdido o sentido pro que de mais em mim, no correr desses dias tantos perturbados e consagrados com coroa entristecendo o que de muito vivaz na gente...
Parece que se reconciliar(i)am... E foi ela, já tendo feito o que precisava e queria, tomar o coletivo de volta pro apartamento-casca dela mesma... morada. O trânsito estava, como sempre, frenético. As pessoas, descabidas. E ela agora, se refazendo duplamente ela de novo... 

O espelhando-tela é de Paul Delvaux, Le Miroir (1936)

1 comment:

Helena Frenzel said...

Interessante, muito interessante. Posso dizer que ainda não havia lido algo assim... Talvez sim, Cortázar... Não me arrisco, curto apenas. A do espelho, sacada legal! Um abraço fraterno, sinceramente.