Friday, March 18, 2011

um sim que atropela um não e que vai dar num vão... o tempo de um não no tempo



Abriu a janela da alma. E alma tem lá janela? Uma porta de se ir (en)caminhando trôpega pela esquina de um lugar qualquer, comum, sem documento que possa pôr tino pra tratar-se de nome de gente importante que antes que e agora rua. Antes que e agora. Um interespaço de tempos. Mas engraçado isso, senão ridículo, de as pessoas em nome esquinando uma simbologia qualquer – sempre de um se apoderar, e até das placas com que se nomeiam as ruas. Para, claro, querer fazer a gente reviver um tempo de um alguém qualquer que se quis ou se fez ou se impôs “gente importante” – em certo tempo...
Pôde ver então o brilho de uma luz fosca vindo daquela rua sem graça, adormecida já. Tarde da noite. As madrugadas, agora no de uma rotina que adentro, além da prosa com o Caio F., porque isso mesmo sempre, traziam então uma outra imagem. Bem mais complexa do que aquela luzinha fosca que vinha da anoitecendo rua lado de fora da casa.
 A gente, quando pensa nas coisas, então que deixa de lado as próprias coisas. Que de coisas passam num zás a signos. Eis que, nessa condição de significando, deixam as coisas de significar, propriamente. Era no que ela pensava olhando a luz daquele dia madrugando na rua. Olhar, por alguma alma-janela, ver o reflexo e não a luz, isso era de uma estranheza absurda pra ela. Porque o ato mesmo de ver já não seria um não-ver? O ato mesmo de pensar, um não-pensar? Pensava no tempo. Que já nem era mais signo do próprio tempo, mas simulacro. Signo do signo. Cópia da cópia que nem modelo tinha – o tempo.
E não podia deixar de sentir o tempo, senão pensando no tempo. Uma complicadura mesmo. Tempo que não esse do tic-tac assustador, pois que pondo amarras na gente. Desse, do tempo dos relógios, ela tinha aprendido a desdenhar desde quando leu pela primeira vez, e isso já fazia muito mais de década, o conto sobre o campanário, diabo sabe-se lá que onde, do [Edgar Allan] Poe. Porque tinha que ter sido assim mesmo. Se a gente vive em excessivo e pensa em gotejamentos muitos sobre esse tempo-ponteiro, então penso – dizendo, pensava também ela ali naquele quarto escuro só com a luz fosca da rua – que tudo se reduz ainda mais a um não-tempo. O que ela ali, naquela casa anoitecida, pensava era no justamente oposto: talvez que muito mais num tempo do Outro. É que uma vez ela deixou entrar um – tempo – que foi borgeseando as complicaduras dele, do Jorge Luís. Era o Outro pois que. Que encontrava um Um, em praça qualquer de canto qualquer. Não importava esse detalhe que ela agora não lembrava mais. Tanto que o Um encontra o Outro num tempo. Que não o de relógio. Que não também nada disso de bobageando tagarelices sobre um tal “tempo interior”. Era tempo concreto, mas não de relógio – o do conto do Borges. Era também um Jorge Luís, distorcido em personagem narrando que tinha-se encontrado tempo. Mas como assim é possível alguém “se encontrar tempo”? Ser o próprio tempo? Se até quando a gente imagina ou pensa, só por um lapso que seja, sobre o tempo este já deixa de ser tempo, mesmo um tal signo do tempo, pra ser signo do signo-tempo? Não era propriamente isso, e ela pensava. O tempo. Mas que ele, o personagem, jovem ainda aos 18 – se ela não de novo se enganava ou esquecia –, se encontrava com os seus anos mais tarde, com o seu outro tempo.   
Outra vez uma outra complicadura... Outra vez o tempo do não-tempo... Que ela deixou pra pensar no dia seguinte, refazendo o tempo da noite aquela em que, janela-alma agora querendo se fechar, só vai aparecer aqui, recontada em continuações bifurcadas dessa narrativa-tempo, quando for sendo aberta de novo a vista... Isso vai acontecer em breve, em parte dois desse tempo cá em que começa a narrativa dessa mesma moça, em casa aforando a madrugada que pois num pensar distante sobre o tempo... Em breve. Psiu. Até lá a gente espera... Tem tempo.
P.S.: a imagem, aparentemente... diz pouco sobre... é de uma parreira cá... pra mais de cinquenta anos ela, ou seriam trinta? Ela também no seu tempo, a parreira... no seu tempo pois que em não no tempo... A gente nunca que sabe certo... A fotografia, signo daquilo que já signo-tempo quando penso nela, eu que... E foi num dia de tempo que penso signo de um meio nublado... Desses que fazem a gente olhar pro nada e pensar assim: será? Acho. Penso então. Foi-se o tempo...


4 comments:

Nina Salomé said...

Bela escrita, me lembrou a unânime Clarice em Perto do Coração Selvagem.

Carol P. said...

Oi querida, te agradeço imenso pelas palavras – bonitas sobre a escrita (e a da Clarice, unâmine em belezura mesmo) e comigo aqui muito generosas...

Engraçadas, de graça gostosa, e tanto mais encantáveis são as coisas: venho de há muito mineirice por blogue seu, silenciosamente mas lá em bastantes, pois que uma Salomandra que me chega sempre desvairando um sem-fim de vontades de ir ter com a escrita de você. Então isso, vou lá e fico às vezes fluxoconscientizando as suas palavras, que pra mim às vezes com aquela “delicacy” versando da Emily Dickinson, sabe? e muitas outras me recobrando sentido pra um de trato fino e cáustico mesmo de uma Clarice... Semana esta, por exemplo, não teve jeito de impedir o titilamento, quase o dia todo, de palavras estas-suas desse jeitinho mesmo como cê lá no espaço bonito seu: “queria eu dizer tudo que me vem à língua, o que me atiça os instintos libertinos e faz esmorecer...”. E fiquei eu pensando, durante e depois disso, naquele dizer em ponta de língua que vai sempre sugerindo o Walter [Franco]...

Penso que a escrita sua muito boa sempre de me encontrar, e eu vou sempre ao encontro dela... E então você imagina, tá imaginando já?, o sorriso que não conseguiu abrir em mim hoje, ele foi imenso, e nesse sábado de chuva-porta-d’alma, eu com olhinhos fixos na tela por conta do que põe tino na gente pra ir vivendo – a condição mulher-sabendo-fazer frenéticos zigues, terceirizando o dia e aforando madrugadas-trampo... Os olhos miúdos de frente pra máquina, a passeio por sintaxes por revisar, imagens por editar, noções por refazer, mas que agora agraciados, os olhinhos e tudo o quanto meu hoje, com a presença sua cá no blogue, e no de então...

Fico às vezes pensoluta: será? Recobro ela, pois que sim ou não, dos tempos-ufulândia? Ora que somos, poderíamos pelo menos ser – contemporâneas, vejo que também então balzaquianas e, talvez que, opiniães aqui-acolá, tenhamos topado lá no de outrora, ainda que num de breve... Lembro então dela época pra trás? Não creio. A lembrança que tenho sempre de você é por conta das palavras suas que vou sempre encontrar no Salomandra... e penso que assim um tanto melhor ainda, não?

Tenho mania de prolixidades, é de se notar. Disse sem dizer muito, quando o que eu queria mesmo te contar era isso, concisamente posso dizer que pois isso: obrigada pelas palavras, as à la française também, e muito tanto pela presença... Às vezes vou ficando com vontade de ler você também em espaço outro, sabe? Desses feicebuqueiros da vida... mas, como reitero sempre, sempre sigo mesmo em mineirice minha de pensorresolutar, quando muito, que não te convido ainda por lá, naquela coisa engraçada de “become friends”, porque, sabe-se lá, de repente você sim ou não... Mas que ia me dar gosto-além também, isso ia muito...

Te deixo cá, Nina que conheço Salomandra em bastantes, um abraço de boas vindas e de agradecimento sincero pela presença e pelos ditos. Mais que isso, um carinho... Continuemos? Salut!

Larissa said...

aaah, amiga, adorei o texto! Nossos tempos e não tempos todos... Adoro sempre seu jeito de escrever, suas brincadeiras com as palavras, quando elas começam também a brincar com vc!
Leitura rápida eu fiz, por conta mesmo do tempo, mas releio com mais vagar depois. Há tempo, né? E aguardo também a parte dois do texto, com a ansiedade de quem quer que passe o tempo logo! ;)

Beijos.

maryllu said...

Gostei de me ver no meio desse pessoal da pesada. Acabei de ir ver a moça que está descontente com a má formação dos brasileiros. Nossa história é mesmo triste. Sertão de piçarra! A senhorita tolere, isso é o sertão...