Tuesday, February 15, 2011

como é que chama o nome disso?

É como se houvesse um peso. Um incômodo que por ora impede o novelo de verter seus fios de linha e ir-se costurando em pedaços de pano. Um a um. Ainda que esfarrapados e desordenadamente. Não há nisso novidade nem estranheza. Ainda menos nas esquinas, nos becos, sob tetos e desafetos, a perder de vista.
Na peleja dos dias todos. De corpo inteiro entregue ao disparate da sobrecarga. Difícil saber qual é a rota. Mas ela não está a passeio – isso é luxo que não lhe cabe. As caixas registradoras, repimpadas do não-poder, desmentem as inúmeras facilidades: aqui, como em São Paulo, ou em qualquer canto, “só ruas, viadutos e avenidas”. Que se percorrem flautuando até certo ponto. O resto do caminho se faz a pé, debaixo de sol estalante. Mulheres e homens desnorteados. Excesso de tentativas vãs. Que não se destinam. Vão dando sempre em lugar nenhum.
Na toada, perde-se o encanto. O paladar para o que se busca confiante na extrema juventude. Espera-se muito, projetos se acumulam. Caminhos parecem estrategicamente traçados. E sem limites. Mas o muro se avizinha. Esbarra-se nele a cada sufocante viagem de ônibus, rumo à cidade. Ideias entrelaçadas às oportunidades sonhadas em tempos de delírio. As melhores vagas estão ocupadas. Pelos mais expertos. Aquelas antas bem-feitinhas que vão roubando da gente as solas dos pés. Comendo-nos dia-após pelas beiradas. Arranjando-se da melhor maneira. Comprando – e como podem comprar! – os lugares criados especialmente para eles, os faustosos.
A inocência vai-se perdendo pelo caminho. Restam algumas histórias. Que vão dar nos buracos que são mesmo feitos para engolir gente. Com a inocência perde-se também a esperança. As impressões digitais. Os caprichos. As expectativas. Os sonhos de leveza, que dão coragem, estes ficam encurralados ou inertes. E as palavras, de prolixas ou encantadas, tornam-se ásperas, sisudas, em frenesi das calçadas, cheias de gentes esbaforidas e suas lições aprendidas nos manuais do “é preciso viver”. Falta grana. Companhia. Subsídio. Cabedal. Escasseiam as saídas. E, mesmo quando existem, parcas ou mutiladas, vão dando no oco da privação.
Desvarios. São desvarios? A rapidez vem corrompendo a sintaxe, e as falas – estas ficam míopes. “Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel”. Em pouco tempo ela se desdobra – são as jornadas que debocham do inadiável, comprimindo o que se deixa para depois. Vida que já não tem mais tanta textura. Difícil saber, depois disso, onde vão dar os limites da personagem e os da atriz. É aí, disseram, que algo se revela. Com ou sem nome próprio. E os diálogos prolixos abafam a falta de tempo.
Brutal entender assim? A rigor, não há nisso matéria literária. As inconstâncias tomam conta ou chega o momento de expelir os destroços – de tão íntimos, eles já não nos pertencem.

2 comments:

Larissa said...

Texto que me deixou sem palavras, Carol... Que me fez sentir e ver nessas palavras a metamorfose-adolescência pela qual passo. Momento-amadurecimento de decisões, de certezas, de planos, de escolhas... Que encontrarão num futuro próximo barreiras, esquecimentos, comodismo, muros, limites. Que fim isso terá? Difícil saber...

Mas, fluxoconscientizando durante a leitura do texto, me veio à mente uma música da Ana Carolina, La critique, em que há gravações de falas de loucos hospicializados, pessoas em desvario... Transcrevi alguns trechos da música, e trago um link com uma montagem bem interessante
(http://www.youtube.com/watch?v=0-8rYv9aqbc)

TRECHOS:
"a loucura não existe"
"a loucura é estar em todos os lugares ao mesmo tempo"
"normal é o tédio dos dias sem graça que as pessoas fazem com elas mesmas"
"eu quero permanecer calado, escutando tudo"
"eu ficava atrás nas linhas da vida
pq eu sou da luz, pq o único escuro que meu corpo carrega é a sombra que meu corpo produz"
"e a pessoa faz isso, faz aquilo, e o que não faz fica mais velho e a velhice vem mais rápido"
"possuir razão é impor... pessoas que vivem fora da sanidade"
"quem é vc? eu tô perguntando: quem é vc? eu sou gente!"

Reflexões sobre a loucura (dos loucos dos hospícios ou dos mais loucos ainda que lá os colocaram?), sobre as diferenças, as desigualdades, o tempo. Sobre todos nós, enfim!

Beijos

Anonymous said...

Carol,

O seu tom é sempre de uma tragédia iminente, como se não houvesse mesmo saídas nem dribles para esse metal-mundo.
Lendo suas linhas em tom de protesto-mudo vago para um universo de horror, sem sabor. Só vejo cinza, blue-escuro...
E vejo q está fora de órbita, fora do eixo, meu amor!
Nada do que escreve reflete sua alma lírica e linda.
Pense nisso!