Wednesday, February 9, 2011

as investigações de um gato, que cismando falar de literatura com a gente

Dizem que gato tem sete vidas, que isso, aquilo outro sobre ele – e o gato vem sendo então bicho custoso de a gente acreditar que morre. Que morre até que pode ser, mas que pensa e conversa com a gente – aí, se tem pessoa que duvida disso, nem precisa quem for querer continuar a ler essa estória porque vai já pensar que eu fico inventando as coisas, que “imagina só se gato entende e fala com a gente”? O meu, hoje grande já e então de há muito experimentado no assunto, da prosa, é o que não me deixa ficcionar nenhuma mentira.
A gente mesmo que conversava muito. O Nicolau, coitadinho dele, me escutava sempre as estórias, chegava dizendo que era ele que me “refazia a literatura”. Talvez que isso fosse verdade dentre as coisas todas que a gente punha tino de emendar assunto entre humano e bicho. Numa dessas prosas, lembro direitinho de ele ficar quase excessivo pra eu não interromper a contação. Dessa estória, que era de bicho, ele tinha gostado. Parece que ele uma vez tinha implicado porque eu fui bobagear de narrar pra ele as “Investigações de um cão”. Não é que tivesse ficado desgostoso do enredo, não foi isso. Nem que achasse a estória ruim de um todo. O Nicolau era um gato refinado, sabia de certo quando a estória era boa e também quando genial o seu autor. E até dava palpite literário. Pode isso – gato gostar de literatura? Não sei se pode, mas o Nicolau mesmo muito é que entendia do negócio. Muitas vezes era ele quem me ensinava.
Então ele desgostou das “Investigações” foi só porque cismou que era implicância minha com ele. Por que é que não podiam ser de “um gato” – as tais das investigações? Pois se gato é que investiga? O Nicolau achou que eu é que tinha inventado o protagonista de ser um cachorro; ou o Kafka é que tinha sido “mal traduzido” porque mais óbvio que ali coubesse um gato, e não um cachorro – e o Nicolau não descartava ter sido de propósito que fizeram a “confusão”, ele tinha lá as suas manias de que gato era sempre muito perseguido... Era isso, tinham errado na hora de entender que cão ali devia era de ser gato. Outra mania dele, de gato, era de falar em tom muito elegante e, no da circunstância, sempre dizia assim: “a tradução da Comédie Humaine, o tradutor do Dostoiévski”... Metidez de gato mesmo, e eu até que não dava importância pra achar que ele merecesse alguma repreensão.
O certo é que, quando fui contar pro Nicolau dessa vez as investigações de um cavalo, que eu tinha lido mas não lembrava o nome do conto, só que era do Tolstoi, então o gato ficou muito mais interessado porque não antipatizava com o bicho, o protagonista. Até simpatizou muito. Fiquei pelejando muito tempo depois sem encontrar a estória pra ler ela de novo e também pra lembrar do título da narrativa – que fosse! Hoje sei e até tive que comprovar pro Nicolau que era verdade: Kholstomér, que era essa mesma a intitulação e também esse o nome do cavalo... De raça nobre o animal. Mas por motivo de ser malhado, e aí que também no mundo animal tem isso de uns desprezarem os outros e explorarem os outros e desdenharem os outros, então por esse arrazoado o cavalo tinha que aguentar a chacota dos de puro-sangue.
Começa já daí isso que o Nicolau entendeu como “a mais bela reflexão de um bicho sobre a condição humana da propriedade privada”. Meu gato era assim mesmo, leitor. Tinha essa mania de grandiloquência quando ia falar de uma estória muito que ele tinha gostado além da conta. E, no de fato, eu também concordava com ele. O cavalo refletia sobre os o que a gente chama em língua assim de pronome – possessivo. Meu, seu, nosso, sua, e por aí todos os outros. Não era investigação sobre a língua, não. Isso mesmo o Nicolau disse que, se fosse, ia fazer a estória ficar de toda chatíssima. Tratava-se de coisa outra. Por que é que gente tem essa mania de dizer assim: meu ar, minha casa, meu cavalo, nosso país, e isso e outro isso? Era o que o protagonista conjeturava. E o que o Nicolau emendava dizendo em tom filosófico, pelo menos era o que ele achava: “posse, poder, discurso”. Minha nossa, não é que fazia sentido? E então, ele muito lisonjeado com a credibilidade que eu dava pra ele ir falando de literatura comigo, o gato pois que completava: “É esse discurso, o da posse, que faz com que um obrigue outro a trabalhar pra ele”. Não parava por aí, o Nicolau ficava muito exaltado e, quando assim, a gente tinha que deixar ele dizer até o fim: “Falar meu isso, meu aquilo é muito fácil. O discurso da posse escamoteia a essência da ação, a necessidade de agir”. Gente, como é que podia um gato falar tão bem de um conto que nem tinha lido? E o mais interessante: saber o que era escamotear, podia isso?
A gente ficou lembro que uma semana falando das investigações do tal cavalo. E foi só a gente cansar disso pro Nicolau aparecer inventando estória. Porque queria ele agora que eu escrevesse, já que ele mesmo não dava conta, e não porque fosse gato, porque pra ele isso não impedia de escrever, não era coisa dessa o seu argumento... Mas é que ele, me confessando, não tinha lá tanta habilidade com a palavra escrita... Então que fosse eu, mesmo atabalhoada que sou pro dito, eu que agora que escrevesse as “Investigações de um gato”. Crescendo em resolução, ele chegou ao desvario de pedir assim pra mim: as Investigações de Nicolau”. Pra me convencer, foi dizendo um tanto de coisa sobre o mundo dos gatos, a mania deles, do que eles desgostavam – enfim, foi me pondo mais a par do assunto. “Até gato tinha lá as suas importâncias no mundo organizado dos gatos” – era o que o Nicolau discursava pra mim...
Durante muito tempo, não respondi que sim nem que não. Fiquei pensoluta de aceitar, claro. Talvez que um dia sim, por que não? E aí venho cá de novo dizer das tais investigações... Ele está cada vez mais que me cobrando isso. Incessantemente. Dia-após. E diz que suas investigações vão ter que ser literárias. Penso que provável que eu vá escrever mesmo sobre isso: um gato que recobra presença da literatura em vida sua. Acho que ninguém nunca que já ouviu falar disso, né?


Não tem jeito de vir sendo diferente. O ficcionismo é aqui inteirinho dedicado pra Tatiana (Carlotti), pro gatinho dela e pro Nicolau-meu. Explico: lendo lá anteontem, nos urbanos atalhos dela, a Tati estoriando sobre ter ganhado a coleção da Comédia humana do Balzac, foi zás... E então essa minha mania dos fluxos, vindo-indo movimento bom ventando as ideias da gente... Lembrei da primeira conversa que tive de fato com ela, virtualidades nossas mas mais assim no delongado, sabem? E foi por causa de uma foto dela proseando com o seu gato – sobre o Balzac, que ambas depois nos confessamos adoração mesmo sem dizer invenção de história nenhuma. Aí que também isso de a Tati conversar com o gato dela essas confissões literárias me lembrou demais as minhas com o meu Nicolau – e teve também até uma-várias sobre o Balzac com ele. Na certeza disso eu conto eu dia como é que foi isso...
P.S.: fica aqui o link, posso Tati, da deliciura sua contando pra gente dessa estória dos volumes todos pra você da Comédia? É assim, e digo porque quero mesmo voltar lá e que vocês aqui hoje façam o mesmo porque vão adorar o gosto da contação dela, não só dessa, mas das todas deliciuras dela por lá nos atalhos:
 http://tcarlotti.blogspot.com/2009/02/uau.html   

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