Tuesday, January 11, 2011

porquoi je n’ai pas pensé à ç’avant? Itamar Assumpção: justo você, maldito vírgula

Justo você Berenice
Que não chega nem aos pés da Vera Fischer
Me sai com essa sandice
De que meu som não chega nem no calcanhar de Aquiles
Do som do Sting, ex-The Police

Justo você Berenice
Que não chega nem aos pés da Dóris Giesse
Me sai com essa sandice
De que meu som não chega nem no chulé
Do som daquele esfinge, ex-Mister Prince

Justo você Berenice
Que não chega nem aos pés da poeta Alice
Da Penélope de Ulisses
Da Irmã Dulce, da Marlene Dietrich...

Compositor, genial e genioso, paulista de nascimento e para-além-de-qualquer-canto no fino trato com a palavra e o som, Itamar Assumpção ainda é pouco conhecido dos brasileiros. Afora aqueles do próprio cenário artístico independente, os apreciadores e/ou divulgadores da música produzida no Brasil que não a do “chavão abrindo as grandes portas” e a “estranja” encantada com músicos do cabedal do próprio Itamar, que deixou estupefatos alemães no primeiro então de 1988, ou do também genial Tom Zé, que, mesmo representando o que se fazia de mais autêntico e com qualidade musical no Brasil já na década de 1970 (época de lançamento de Tom Zé e Todos os olhos), precisou ser redescoberto quase vinte anos mais tarde pelo norte-americano David Byrne para então voltar e rebentar no país, afora, enfim, este “grupo seleto”, Itamar Assumpção é ainda, e injustamente, ilustre desconhecido tanto da imensa massa de brasileiros como dos “bastidores” da cultura brasileira aos quais ele mesmo sempre se voltou e representou com inconfundível talento e sensibilidade. 
Músico independente, que não vinha para “passar uma moda” e que se dizia inconciliável “com as dificuldades impostas pelo mercado”, tendo ele mesmo que resolver a sua linguagem e tentando representar “poetas que não cantam”, como Paulo Leminski e Alice Ruiz, Itamar chegava disposto a tocar no avesso das coisas, a cantar em tom de arte que não estivesse alinhada com “o que se ganha materialmente por meio da arte”. Seus shows eram, sempre foram performáticos. Difícil ter havido público que, ali diante do Nego Dito no palco – por vezes pequeno para tamanho talento, travessuras e trocadilhos –, ficasse apático ou alheio ao grito de resistência – cultural, artística e racial – rasgado em forma de verso e ritmo. Tão mais difícil ainda é pensarmos que mesmo hoje, postumamente, a música desse cara nego-dizendo as coisas em ponta mordaz, nunca mordaça, de língua deixe de encantar e encafifar ouvintes Brasil afora.
Mas deixa, claro que. Maioria sequer já ouviu o nome Itamar Assumpção em canto qualquer do país – o que, faço dito, não reduz grandeza-luz dele, das músicas dele, à necessidade de uma plateia de contentes. Tampouco isso parecia incomodar o próprio compositor: “Não interessa se está tocando no rádio, essa é a minha cultura e a minha salvação”. Tomamos a nota, interior dele pra nós.
Na cena cultural brasileira, hoje ainda mais que nas décadas de 1980 e 1990, quando o próprio Itamar reconheceu que “toda a música que estava no mercado era de pseudoartista”, parece, enfim, não caber na cena “majoritária” da cultura nossa (nossa? de quem?) o trabalho refinado de Itamar Assumpção com a palavra e o som. Menos em virtude de uma suposta não-aceitação de um suposto público do que propriamente por conta de um sem-fim de imposições culturais, sempre de cima para baixo.
Desde os capciosos interesses da indústria do entretenimento, que goteja ao consumidor de arte, e quase unanimemente, pseudoartistas e seus produtos descartáveis, à imagem e semelhança do jogo do capital corporativo, até a reprodução desgovernada, que beira à exaustão de um trabalho full-time, de valores (culturais, sociais, de arte e tantos outros) reduzidos aos termos de um grande acúmulo de espetáculos, comprimem-se as diferenças, curiosamente dando-se a impressão de enaltecê-las, anulam-se ideias, aspirações e objetivos, desenvolvem-se novas e cada vez mais potentes formas de servidão social e neutralizam-se críticas ou oposições ao “esquema”.  
É nisso que vamos confabulando residir o desconhecimento dos mais talentosos artistas brasileiros pela maciça população nacional. No caso de Itamar Assumpção, comodamente (ou não) aceitando o rótulo de “bewildered herd” (nos termos de Noam Chomsky), a maioria, quando muito, cantarola “Vou tirar você do dicionário”, “Dor elegante” ou “Código de acesso” – gravadas por Zélia Duncan. Mas com isso – com essa espécie de mezzo anonimato – o próprio Itamar não se importava muito. Confundido vez ou outra com o Nego Gato, o Nego Dito compunha e cantava por aí, acompanhado de seus bartolomeus e ptolomeus. E ainda que em “passos-compassos não só na tonalidade, mas também no jeitão de ser” Luiz Melodia – com quem muitos viram semelhança (mesmo?) –, porque era da sua cultura, dos seus tiros aqui-acolá contra o mundo que mantinha ilustre a vontade de ser artista – bendito! Ou simplesmente artista – e dos raros talentosos e independentes, fina flor que sempre foi da música brasileira!
A fama de maldito, adquirida já nos primeiros anos da Lira Paulistana na década de 1980 – “essa coisa de avant garde”, disse ele mesmo em entrevista a Zélia Duncan –, não é motivo, nunca foi, para que a sua música deixasse de ser apreciada e Itamar, ele mesmo, reconhecido e aplaudido, ainda que por “coro de descontentes”, como a flor sem domestiquismos mercadológicos da cena brasileira independente.
Antes de “apagar um no Paraná”, em dia qualquer entre 1969 e 1973, e rumar à capital paulista em definitivo, onde faria carreira de mais de vinte anos, Itamar Assumpção já roubava palco-olhares em Londrina. Na Boca do Bode (mélange de show coletivo e happening organizado, em 1973, pelo escritor Domingos Pellegrini), foi conhecido e convidado por Arrigo Barnabé para “ensaiarem umas coisas”. E que. No correr da década de 1970, tudo muito difícil ainda, Itamar levando a música como podia (à época também como percursionista de Jorge Mautner), o ainda não Nego Dito de São Paulo fez, em parceria com Paulo Barnabé (do Patife Band), os arranjos e “deu a cara para” “Diversões eletrônicas” e “Infortúnio” – duas composições de Arrigo que mais tarde integrariam o disco Clara Crocodilo.
Em 21 de maio de 1979, a noite-estrondo: a banda Sabor de Veneno (composta por Arrigo e Paulo Barnabé, Itamar Assumpção, Neuza Pinheiro, Bocato, Tetê Espíndola, Suzana Salles e outros sete integrantes) subiu ao palco do Teatro Pixinguinha no Sesc Anchieta – em meio a vaias e aplausos, a plateia ainda dividida – e arrematou, com “Diversões eletrônicas”, o primeiro lugar no I Festival Universitário de Música Popular Brasileira (da TV Cultura). Os prêmios de melhor intérprete (Neuza Pinheiro) e melhor arranjo ficariam também com a banda, pela música “Sabor de Veneno”.
Um ano depois, em 1980, aparecia Itamar Assumpção no cenário paulistano com a sua “Nego Dito”, uma das músicas constantes de seu primeiro álbum, Beleléu, Leléu, Eu, também de 1980. Inscrita no Festival da Vila Madalena, “Nego Dito” levou o segundo lugar. Para Arrigo Barnabé, a carreira do Benedito João dos Santos Silva Beleléu começava ali. E ressoaria além: não tardou para que Itamar se tornasse ícone de uma geração de compositores e intérpretes que vinham pelo Teatro Lira Paulistana, em Pinheiros, ensaiando e acrescentando  nota outra à música brasileira.
A Vanguarda Paulista, como ficou conhecido o grupo que se reunia no Teatro Lira no início dos anos 80, mostrava, então, a que vinha: Itamar Assumpção e sua Banda Isca de Polícia, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, grupos como Língua de Trapo e Premeditando o Breque e, dentre outros, o Grupo Rumo de Luiz Tatit, Ná Ozetti e Paulo Tatit representaram, ô! se não, marco evolutivo da música nossa pós-década de 1970. Superava-se o já enfadonho Tropicalismo dos enfadonhos Gil e Caetano e produzia-se música de feições outras no Brasil: a originalidade e multiplicidade de estilos; a influência do dodecafonismo e do afonismo; a mudança de perspectiva no tocante às composições, que passariam a contar com sílabas embaladas pela canção popular e a poesia, em larga medida dissonante ou “maldita” (lembremos a “Negra Melodia” de Jards Macalé e Waly Salomão, já de 1977); a impressão de um som que se articulava entre o rock, o reggae e o pop, mas sendo ele mesmo avesso a qualquer etiqueta desta-daquela tendência; o grito que se exprimia após anos de tradição recatada ou excessivamente soante – tudo isso, enfim, vinha rebentando nos palcos novo-cenário da música brasileira.
Música de qualidade, é preciso lembrar. E de compromisso. Que também já vinha sendo produzida mesmo pelo grupo de malditos de São Paulo, cada qual à sua maneira, ao seu estilo peculiar de entoar. Música de qualidade que, para além destes compositores paulistas, ressoava gigante nas composições de outros gigantes: Tom Zé e Walter Franco são inegáveis – e ilustres – exemplos! (que mereceriam, textos outros, e sempre incompletos, por conta da enormidade- talento).
De Itamar Assumpção, enfim, a gente sempre quer dizer muito, ainda que dizendo muito pouco. As suas composições, músicas-sons, somadas à voz inconfundível do Nego Dito, dizem muito mais. E dizem tudo um muito. Depois de Beleléu, vieram discos incomparáveis em refinamento, em boa música, em talento artístico. Ilustres desconhecidos ainda hoje? Muito provavelmente. Ou não: que deem ainda a sua repercussão, tanto mais agora que se relançou em São Paulo, em outubro último, e contando com a presença de muitos ilustres em shows de homenagem ao Nego Dito, a sua Caixa Preta – esta que traz pra gente inéditos os póstumos Pretobrás II e III, quem diria!
Às próprias custas, Sampa Midnight e Intercontinental, os três da década de 1980, abririam caminho para a série, em três volumes, Bicho de sete cabeças, gravada e lançada com as Orquídeas do Brasil entre 1993 e 1994. Dali para 1998, veio-vindo o Pretobrás, disco extenso, dois anos depois da gravação de Pra sempre agora, em homenagem a Ataulfo Alves. Em 2004, parceria com Naná Vasconcelos resultaria no último disco gravado por Itamar: Isso vai dar repercussão. E deu! Poucas, mas bocado de composições, fruto de uma intensa-boa parceria!
É preciso, enfim, pôr em ata a fábula. Muita danação que há por contar e refazer mas que, no de então, fica sendo pra daqui a outros. Que fim deste aconteça pelas palavras do próprio Itamar Assumpção, ora se não: “Prezadíssimos ouvintes / pra chegar até aqui / eu tive que ficar na fila / aguentar tranco na esquina / e por cima a lotação”... lotando a gente de belezura musicada a perder de vista, e ganhando encanto-som. Maldito? Só se vírgula.
  

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