Sunday, January 9, 2011

eu e ela – somos sendo outra de uma mesma?

O quarto. Coisas sobre a mesa são propriamente a bolsa, o telefone e um presente. Cama vazia. Foi escolhida para ser assim – vazia. Não por necessidade, ou falta de cabedal pro contrário. Isso não. Porque ela, elegante, mulher de talento e contornos desejáveis, não se faria cama-vazia se não o quisesse. Acho que quis, e foi sendo isso. O porquê de tal querência não compreendo ainda. Talvez pressinta só. Não concordo nem desaprovo. Respeito convicção esta de se querer alguém sem quem. Compartilhar cama e repartir desentendimentos-quarto devem ser mesmo difíceis gestos, insuportáveis pra ela. E por isso provável ela sem.
Quando a gente entra na casa, é o que apenas imagino sem ter tido, um lugar de proporções que desavisados não compreendem com fita medidora. Sapatos ficam inativos, são jogados longe. É o que ela me disse querendo algum instigamento curioso de mim pra ela dia qualquer que. Imagino-a espaçosa. Morando ali quatro pessoas, talvez cinco. Nenhum contador de horas exatas impõe quando ela almoça ou retorna. Costuma ser pra ela o que for possível no dia. Afinal, muitas horas são trabalhadas.
Não a projeto estudiosa, nem nos tempos de formação. Certa inteligência sensível deve ter feito com que ela seguisse a corrente. Tampouco vejo com ela livro qualquer sendo aberto. Muito trabalho. Horas a fio perdem-se de vista dentro daquele primeiro cômodo. Que não fica na casa, mas no lugar de jornada – sendo ele então duplo. Primeiro ela amanhece beijando riqueza maior sua – mesmo sem confirmação, tenho certeza larga disso. E segue pro cômodo apertado e estreito onde atende sem-fim de desesperados. No de após, imagino-a almoço. Se em companhia ou só, não dimensiono fazer zigues de projeção que não me cabe. Mas sei que dali-refeição, passo adiante é o do segundo cômodo. Este conheço em detalhes. Ali onde tenho com ela sempre. Atende-nos com suavidade, pouca pressa. E é local este de trabalho-além, vezes outras quase sempre até tarde anoitecendo-se cuidado, com os outros, com a gente.
Nunca tive contato estreito com ela. Tampouco sei se não fica sendo desdobramento de mim o que vejo querendo muito pra mim, na verdade comigo eu e ela. Um duplo? No de talvez, saberia quem? Penso que não. Primeiro porque não tenho metade da graça dela. Nem beleza dela. Nem leveza dela. Depois porque seguimos caminhos distintos, desses que levam a gente pra condição mulher-homem do labor diário. Impossível sermos a mesma, ou outra de só uma.
Mas me refaço nela. Venho com isso pra mais de ano. E me apaixono perdidamente por ela. Pela outra? Uma duplicidade? Não creio. Fica sendo pra mim ela mesma. E então vou invocando às avessas, vendo jeito nenhum de chegar mais perto dela. E desconecto. Até que ela me vem novamente em ambiguidades que me põem justo em eixo seu, de querer ela. E fico querendo de novo. De um jeito que quero adorando, mesmo sabendo que difícil encontro não-ortodoxo com ela.
Mas então veio túnel menos estreito dia desses. Os olhares ressaqueados, estes eu já os percebia de há muito. Mas duvidava serem de fato meus, pra mim vindos dela. E eis vieram outros. E outros. Correspondendo eu a todos eles, em regozijo – seria ela pra mim querendo? Duvidava. Pois que tríplice ambiguidade veio, duas primeiras em corredor frio de lugar que não digo, ou mantenho só na imaginatura de um dizer. Pergunta indiscreta, faço? Ora que sim, por que não? Tudo bem mesmo? Pelo sim, te digo negando. Ou que sim sem que isso seja um não-sendo. Fiquei cabreira. E emendamos uns aventamentos, umas insinuações pouco lineares, nada convencionais dali em diante.
Primeiro tive que ir de novo passar temporada curta em corredor frio de lugar-já-meio-dito. Ela foi ter comigo lá, hoje penso que foi só pra ter comigo lá, nos três dias em que eu-lá. Ia sempre muito bem arranjada. Penso que querendo mesmo me incitar pensamentos de querência. E foi podendo ser isso de mim pra mim, vindo dela. Num dos dias, criei coragem-além, até hoje não recobro como. E disse assim parecido: um convite, foi o que. Nada ortodoxo. Precisava ver reação. E tive pressentimento bom porque ela, no fim das contas, e no de espontâneo, disse que, claro que sim.
Mas então veio desconexão outra. Fim de ano. Falta de sorte, e de tempo. Nos sumimos de novo. Tentei contato, mas por via torta. Ela não respondeu no de imediato, foi-me tardando. Quando sim, virtualmente. E muito receptiva. Estanhei – gente importante que nem ela assim, tão dada, tão abrangente. Eu, atabalhoada, e com muito pouca querência no da ocasião, respostei seca. Pensei ali ter quebrado um vidro. Não foi. Não tardou pra que houvesse tentativa outra dela. Dessa vez inteira dela. Duvidei. Mas foi sendo isso. Tempo longo de proseamento suave, com voz derretida dela pra mim. Pudera? Podia porque pôde e foi o que. E então venho projetando isso-aquilo-outro de novo com ela. Quando não sei até se vou ter coragem pra. Preciso porque me vem novamente querência. Mas eis que até hoje não sei se esta mulher cabe em mim, e se eu, desusada tanto de mim, vou podendo caber nela. Um duplo? No de talvez, não saberia quem se. Outra que me desavisa, isso sim, com certa certeza de um incerto. Amanha vejo se resolvo isso. Penso que difícil resolver. E anoiteço hoje eu com ela. Comigo vou sendo dupla, instável, insignificante-reles. Com ela me vejo no de além – e então vale o quanto pesa, não?

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