Sunday, November 28, 2010

somos o que não somos – é essa a dor canalha que dilacera?



Conheci dia desses um cara. Quer dizer, conhecer – levado à sola da letra, ou à ponta do termo – não conheci. Fui descobrindo na sintaxe dele algo muito além do rés-do-chão. Ou – o que me pareceu tanto mais interessante – palavras dele saindo de um pavimento de concreto-asfalto, portanto chão, e se tornando imagem, também imagem-chão.
E foi virando ideia fixa. Desde o início da semana. Em meio a um sem-fim de coisas por fazer, tic-tac do cotidiano abafado – e imprevisível – em que a gente residua, querendo ou não (eis um luxo que não nos cabe), foi virando ideia fixa passar sempre por uma galeria de palavras das quais eu ia dando notícia, de mim para mim, dia-após. Um equador das coisas. De coisas. Palavras hediondas. De um cara que se diz também hediondo. Equatorial no jeito de entranhar as coisas e de se deixar ensimesmado com o que extrai dessas mesmas coisas. Pudera! Uma escrita sem linha. Uma sintaxe que vai fluxoconscientizando dali, sendo esse ali um equador de coisas ou propriamente o chão.
Uma vigésima parte qualquer de um texto qualquer – foi o que eu li primeiro. E foi também o que eu mais pressenti não saber explicar. “Somos urgências e o nosso tom é de morte”. Ou de vida que só se definirá no ato mesmo-foice que, sancionado, poderá então sancionar. “O nosso tom é de morte”. E talvez o vício nos caiba mais do que um nome. Ou um lugar. Somos, afinal, urgentes. Os vidros dos carros, os faróis, cinemas e supermercados, homem depois de homem, semáforos, compromissos, mãos que apertam e surram, tudo isso nos vem descendo e entranhando, ainda que em (conta-)gotas. E em tempo que aos outros soa hábil. Ou não.
O que não somos, Germano-Equador-das-Coisas, é o que nos faz ser. E desfazer. Encontrar no que não foi dito uma sanção escamoteada – de morte, que seja! – ou ações que resvalaram sem dar o ar da sua desgraça nas páginas dos livros de tim-tim que nos fazem descer goela abaixo, naquela-ou-nesta faculdade de louros e letras.
Sentada nesta cadeira, de frente para a tela, aqui as letras suas entranham, ainda que. Expelindo coelho do que não sou, ou do que sou em demasia, de costas para o que não tenho, as coisas suas – equatoriais – aqui se se estranham, explicam para cegar, confundem e cegam. Mas é cegueira branca. Melhor dizendo, é transparente, sem ser isso ou aquilo que as pessoas acham por bem classificar. Foi o que me fez hoje, uma vez mais, ler texto-novidade seu. O de então sobre o cinema. Com o qual concordo discordando, porque assim vejo mais graça de começar a prosa, ou de encerrá-la por aqui mesmo.
Quem sabe um dia, sem sermos sócios de homens de negócios, tanto menos bartolomeus ou ptolomeus, não vamos dar nos atalhos de uma Vie Américaine, nos sobrados de um The Dreamers, nas trincheiras d’El Ángel Exterminador ou no enclaustramento absurdamente branco daquele 1,99-supermercado-que-vende-palavras?
O que não somos é, de fato, o que nos faz desfazer.   

7 comments:

Marie of Romania said...

Extremely amazing. No words to express how delight I am with all this brilliant stuff. You're super. You've just discovered America as Columbus once did. Travel easy and a have a nice journey.

Germano Xavier said...

Muito grata surpresa, Carol.
Fico feliz de meu espaço poder proporcionar sensações assim tão contundentes. Já considero teu texto como parte da "fortuna crítica" que a mim foi direcionada até os dias de hoje, se assim posso dizer. Te abraço. Carinho.

Continuemos...

Carol P. said...

Marie,

I thank you so much for your sweet words! And I'm glad that you liked the blog, its texts, its images...

No words from here too to express how delighted I am with your comment.

Feel free to come over here whenever you want, right? You're so welcome! And thank you again for your delicate, sincere words of encouragement!

Carol.

Carol P. said...

Germano, grata surpresa também de minha parte. De algum canto aqui-ali das Alterosas-cá te abraço e te agradeço de novo pelos textos bons que leio por aí...

Continuemos, claro! Urgentes que somos, e também (sobretudo) de palavras com que amenizar (ou potencializar) a dor do mundo.

Até breve, então.

CAROLINA CAETANO said...

Carol, senti isso ao adentrar as pedras do Germano também. Talvez não exatamente isso, mas há tanta coisa e há tanto que vêm sentidas.
Eu só não sou de dizer, mas, como cê disse, eu digo também. Tá dito.
Um abraço!

Carol P. said...

Carol, xará que agora não me é só imaginária interlocutora, uma quase "in persona" (pelo menos pros meios virtuais acho que)

dito e redito, em resposteio elegante - e zás - o seu, aliás... Os textos do Germano são daqueles que dão na gente um (numa palavra, e bastante insuficiente) "rasgo". Daí pra frente, ou pra trás (nunca se sabe se há alguma linearidade na vida, desconfio que não), o que a gente lê desse moço vai fazendo mesmo a gente residuar num bom (ou mau, não faz diferença neste caso) bocado de. Fantasmas. Demônios. Reminiscências. Projeções. Ditos e não-ditos. Sentenças inabaláveis, de suposto só. Aqui. Acolá. Textos que não são datados os deles, não. Textos de gente grande, que sabe manejar (ou fazer soar) a palavra. Gosto disso - muito! Tanto mais dos efeitos devastadores disso na gente - é o que vale no fim (ou qualquer outro tempo) das contas...

No enfim: fico feliz que tenha passado por aqui com o seu rasgo de então. Volte sempre. Será muito!

E você: te faço convite nada tentador, acho que até desvairado, mas gosto assim porque... Estou com uma ideia de fazer a quatro mãos (questão mesmo de opiniães) um texto no desaviso, mas com melindre (ó o primeiro desatino disfarçado de lucidez)... enfim, um texto metalinguístico no último mesmo: duas pessoas que se "encontram" (se perdendo de vista, é claro) para escreverem um texto (no desaviso) e lançarem em seus respectivos blogs. Sobre? Este lance mesmo do encontro para a escrita de um texto "virtual". Coisa de duas páginas wordizadas...

Duas perspectivas: uma e outra, sua e minha, a gente dando jeito se dá jeito de juntarmos ambas no texto, coisa insana assim mesmo - eis o propósito. Que cê acha? Topa fazer comigo?

Se sim... então aí dito procê: tá dito!

Abração, Carol. E não leve a mal (tampouco a bem demais) a minha propositura... achei, é que, você interessante, o que escreveu também, tudo que já vi docê até então... e propus, ora mas - sem explicação menos ou mais coerente, sendo só...

Carol P. said...
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