Tuesday, May 19, 2009

a entrada no prédio central III


no outro bolso, um comprimido -
cianureto - morte rápida e sem dor
alguém alarmado? não, desnecessário
replay disso quase todos os dias, ali, em qualquer lugar
pessedebistas, pefelistas, pemedebistas... em cujos olhos nada de arrependimento ou compaixão
antes, a riqueza, sem destino certo, sem distribuição
paraísos fiscais, rapacidade a céu aberto, sem cerimônias

momentos antes do comprimido: atentado terrorista? isso mesmo?
rumores, conjeturas
o peregrino na entrada, o atestado no bolso, comprimido quase na mão para
mão quase fora do bolso... o comprimido
um estalo: tiro em legítima defesa
necessária a proteção dos importantes - um deles descia, ali mesmo
do carrão importado - desprotegido, coitado
e a mão quase fora do bolso do peregrino?
suposição mais notória: um revólver, talvez, pronto para o atentado
não! o atestado de óbito, apenas isso

o sangue derramado ali na entrada, também no asfalto
mistura de carências, desconforto, um quê de tentativa, de reação, de última cena -
a caminhada longa, três dias, sol forte, pés inchados, encardidos
agora ali, o corpo inteiro no chão
à espera do fichamento, IML, enterro digno dos indigentes

e o homem importante - respiração aliviada, quase perto da morte, do provável tiro do peregrino
impossível morte tão cedo para o importante -
muitos negócios ainda, a fortuna incompleta, bens aos sucessores -
prolongamento da roda da vida, à brasileira
e muito perto, o homem ali, estirado, ausente
da chance do seu próprio destino

em vão o cianureto
em vão a caminhada
em vão o revide, a tentativa, o ressentimento, a não-compreensão -
este último gesto de desespero e resistência
em vão a entrega do atestado de óbito em memória da mãe
eis agora o seu!


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