Sunday, April 19, 2009

mas qual vitória?


- Vamos eleger o presidente!

- Aquele que salvará o mundo?

- Viva-viva, o homem se fez eleito!

- Não chorem mais, criancinhas famintas. Não se desesperem, homens sem rumo, trabalhadores explorados, residuando num sem-fim de misérias e carências. Nem se desatinem mais com as mesquinharias dos usineiros, petroleiros, agroindustriais, lobistas, políticos da desordem, propagandistas do "não há o que fazer, a vida é assim mesmo". O homem vem-vindo, tomando posse do país que dita as regras, que acredita falar em nome dos personal effects do mundo inteiro...

Ao caminhar pelas ruas de Solaris, Melinda não pôde deixar de ouvir os desaforos. Gentes de todo tipo apregoavam seus insultos contra o bom senso, conclamando vitória do presidente. Negro? Sim, mas não apenas. Outras razões, e mais imediatas, levaram-no ao topo. Lobista dos homens de negócios, do corredor das bolsas de valores, importantes em suas importantes missões de engordar os bolsos e miserar os que não servem, ou servem pouco. Também desses experts em devassar as illusions, que de há muito são perdues - eis o perfil do homem. Vai dar continuidade a. Vai subtrair o último suspiro de dignidade daqueles que só podem pensar no de comer (mal), no de comprar (pouco), no de ouvir (disparates), no de esquecer (a rapacidade toda que toma conta).

E ela, ali, sem destino. Mulheres e homens e crianças, até os animaizinhos de estimação berravam de euforia e esperança. O homem estava eleito. E fez discurso - essa, a principal tradição. De início, ensaiou um deslize, forjando nervosismo natural de quem luta por dias melhores. Ah, os almejados dias melhores!, que se perdem em manhãs rasgadas e noites insones - é assim com todo mundo. Não? Era com Melinda. A eleição do presidente punha termo a isso - ao desespero, compartilhado, de não acreditar mais em desavenças, rejeitando as "mágicas soluções para a humanidade".

Ninguém gritou o nome do candidato-eleito em vão: no oriente e no ocidente, lá estavam os que deram suas mãos firmes, ou coro de vozes harmoniosas, à vitória do presidente. Natural? Talvez! Insano, e Melinda foi acusada no trabalho de distorcer a verdade. O presidente salvaria, sim, o mundo! Uma sua colega, de nome Bajulalu - diz-se negra com orgulho e luta em favor da negritude, fazendo discursos inflamados aos seus "educandos" -, chamou-a desalmada: como era possível alguém descrer das boas intenções do homem? E de sua dignidade? (afinal, o primeiro presidente negro do mundo dos importantes). Um orgulho, uma salvação! Recuperam-se séculos de escravidão, convertendo-os agora em vanglória, a de um que veio dos homens expropriados, viajando nos negreiros navios para construir nações inteiras. Eis o discurso do "faz-de-conta", e contra o qual Melinda merecia represália.

Viraram-lhe a cara todos os colegas de área. Absurdo pensar assim, insultar a tão esperada vitória. Quede a honradez típica daquele que convalida vitória estrondosa como essa? Não havia para Melinda. Entrou na sala de aula, insultada, sem sorrisos, estrangeira. Também ali havia certa honraconfraria: uns tantos meninos contagiaram-se do mesmo discurso. Alguns estavam ainda confusos, talvez indecisos. Outros, prontos para o combate. Disse apenas ao que fora.

Caso parecido... Contenção de possíveis revoltas? Talvez. Que é que se tinha feito aqui nas Bruzundangas oito anos atrás? Passados os quatro + quatro anteriores, de disforias e espoliações, meteram-nos pela garganta um presidente para acalmar os ânimos - seria popular(ista). Antes disso, não podia, não devia. Um presidente das ditas "minorias" - não o deixariam entrar, como não deixaram. Era preciso vender muito primeiro, miserar, fazer conluios resistentes, escamotear. Depois, quando se entregasse quase tudo, viria o homem. E veio. Vem sendo bom para o país? Melhor do que o anterior, sem dúvida, e (não?) apenas. Hoje mesmo distribui sorrisos e se orgulha de ser "o presidente mais popular do mundo", nos dizeres daquele recém-eleito que a Bajulalu exorbita.

Ao final da aula, Melinda - exausta! Que dê o que pensar - pensou. E deu. Cabeça explode quando se bota nela dinamite. Não tardou para que os meninos tomassem para si a dúvida: será mesmo o homem um confabulado? Era, Melinda sabia. Mas não impôs, difamou apenas. No intervalo, Bajulalu ameaçou abrir processo administrativo contra ela, "anti-pedagógico" ela dizer assim coisas tão infames. Não abriu. Mas prosseguiu conjeturando sua saída do colégio. Era preciso. A fatia do reconhecimento vinha sendo dividida, mesmo expropriada dos adeptos do homem vitorioso, e da desordem do senso comum pedagógico. Absurdo isso, pensava Bajulalu. E contava com apoio de fortes sectárias, também preocupadas de há muito com a tal fatia.

Deu menos de um mês e Melinda estava na rua. Expulsa! Para conter a fúria dos seus meninos, que vinham desde o início do ano parceiros de seus desaforos e provocações, trataram logo de ir pondo a decisão por debaixo dos tapetes. Foi um joga-proutro danado, ninguém assumia para si responsabilidade pelo ato - administrativo, mas sem evidências dos seus princípios reguladores. Houve manifestos - presenciais e escritos. Os meninos foram tomar satisfação. Foi um enrola-rola daqueles. Melinda vinha sendo desde sempre "anti-pedagógica", disseram. Não convenceram. Os pais foram solidários - assinaram também os manifestos. Dias inteiros que ainda restavam de cargo, passavam-nos ali debatendo a derrota - a de Melinda e seus meninos. Foram ter com o Diretor de Negócios e Conluios Supremos, o que controlava todas as fundações da grandiosa instituição de ensino onde havia o colégio. "Impossível passar por cima da autoridade da Representante-Diretora-Melmel do colégio", a que, na última hora, assumiu responsabilidade pelo dissídio.

Choveram solidariedades, dos meninos. Que não se conformavam. Melinda escreveu dossiê, enviou repúdio coletivo aos colegas. Dois apenas fechavam com ela, e como estes (na verdade, estas) eram apreciáveis - postura ilibada, sensibilidade acurada, ensino de primeira, preocupação também com a formação dos meninos. De outros, solidariedade acorrentada ao silêncio.

Vitória de uns. Derrota de outros. O ditado cabe e se espalha Bruzundangas afora. Melinda? Ainda se recupera do revés, da derrota sua. Como? Deixando-se expelir neste seu coelho negro. Terceira pesonne foi buscar nele a sua palavra de desordem. Os meninos? Solidários sempre, continuam duvidando da vitória do homem e lamentando a derrota sua de outrora. Vitória? Derrota? "Os nomes dos bichos não são os bichos".

Melinda adverte: qualquer semelhança no tocante às personagens e aos episódios deste seu coelho negro vomitado hoje advém de uma coincidência da ficção. Realidade? Invenção? Ou não!
Melinda dedica este seu coelho negro a: Linda Aliteração, Yasminininha Justa, João Pedro Presidente, Luarinha Fada Madrinha da Viagem-Minas e de Muitas Outras Coisas, Lua Poeta dos Cafés e Cigarros e Mais, Elly Designer, Aryall dos Textos Que Devem Ser Publicados, Hein?, Jornalis Jess, Graça Gess A, Xará-Mor da Adequação Vocabular, Luddi Grace A, Fran Céu A, Miguilim Ru, Rafa no Aperto do Xixi no Ônibus, Sam Sam do Caso do Pipiu na Abóbora. Estes seus meninos hão de representar os demais, tão essenciais quanto! Também à Querida M (de Mãezona e Mulher Admirável) e à K Cherie, ambas colegas do apoio. E, claro, às que queriam porque queriam ficar com a fatia só prelas: à Cruel-Crudelíssima, à Décadence Sans Élegance, à Bajulalu e à Valorzim Modesto-Precário.

2 comments:

Linda Aliteração said...

Uau, Melinda! Que bela história! Pena que tão triste... Mas recheada de boas ironias.

Parabéns pela muito bem ficcionada realidade!

Beijos

Melinda... said...

Você, como sempre, é a que inaugura com bons fluidos as melindices todas... Impossível não agradecer: pela leitura, pelo comentário, por ter vindo compartilhar um dos primeiros coelhinhos melíndicos expelidos. Dê notícias, fique sempre por perto.

De longe-sempre-perto, as melindices sempre te compartilharão e te trarão pro perto-mesmo-longe.

Miríades de beijos e saudades, perenes.